27 de nov. de 2010

JOEL DA CONCEIÇÃO CASTRO: um garoto negro,
cheio de vida e sonhos - vítima da violência e
incompetência policial na favela!


Em pleno século 21 nos deparamos com um verdadeiro genocídio de negros e pobres marginalizados pela sociedade e estigmatizados por um "poder público" que, ao invés de nos dar proteção, nos mata, nos estermina como nos tempos das senzalas e pós-abolição quando todo o investimento no poder bélico do Estado visava tão somente "coibir" a "vagabundagem" daqueles que eles diziam ter alforriado. Desde aquela época "os capoeiras", por exemplo, eram considerados como marginais, vagabundos e desordeiros da "ordem pública". Hoje, porém, apesar das conquistas adquiridas por esse povo sofrido, resistente e lutador que é o povo negro, a coisa ganhou uma roupagem, uma maquiagem e uma dimensão bem diferentes e maiores, embora a essência continue a mesma: DISCRIMINAÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA-RACIAL!!!

Todos os dias somos vistos e tratados por policiais despreparados como bandidos em potencial. Infelizmente é esse o olhar da maioria dos policiais que, ao adentrarem em nossos bairros, só conseguem ver em sua frente "suspeitos". Ou seja, "negros, mal vestidos e pobres moradores da favela". Devemos esse estígma, também, à massificação de uma certa imprensa midiática cuja abordagem chega a ser sádica, desumana, discriminatória, sórdida mesmo, no que tange ao trato e o "modus operandis" de negros e pobres da favela.

O caso do garoto Joel Castro abalou a todos nós que convivemos, diariamente, com essa triste realidade em nossos bairros chamados "populares". Diante disso, no próximo domingo (28/11) às 10h da manhã a comunidade estará realizando uma PASSEATA EM PROTESTO E REINVINDICAÇÃO ao Poder Público pela aceleração das investigações e punição dos culpados pela morte trágica do inocente Joel Castro (10 anos) abatido em seu próprio quarto por duas balas ditas "perdidas".

Estive com os pais do garoto ontem à tarde (24/11) e hoje pela manhã (25/11) a fim de dar meu apoio pastoral. Fiquei com o coração partido em ver, de perto, o sofrimento daquela família. É, de fato, uma perda irreparável. Pois tenho um filho de 9 anos e peço toda hora a proteção de Deus sobre a vida dele.

Não podemos mais aceitar que continuemos sendo resultado das estatísticas frias e desumanas do absurdo número de morte por homicídio (doloso ou culposo) de quem quer que seja. Principalmente por aqueles que são pagos pelo Estado a fim de nos dar proteção. Afinal, somos cidadãos, pagamos impostos e "temos o direito de ir e vir"! Ou não? Mas o que vemos, a cada dia, é que a FAVELA ESTÁ SEMPRE NA MIRA DE QUEM DEVERIA NOS DAR PROTEÇÃO!



Pr. Henrique Coutinho.
Coordenador da Comissão da Criança,
do Adolescente e da Juventude da
ANNEB-BA (Aliança de Negras e Negros
Evangélicos do Brasil).

LÍDERES COMUNITÁRIOS (PR. HENRIQUE COUTINHO, WILL E PAIXÃO) SE SOLIDARIZAM COM OS PAIS E PARENTES DO GAROTO JOEL CASTRO (AO FUNDO, O QUARTO ONDE ACONTECEU A TRAGÉDIA!).


Henrique Coutinho dos Santos

27 de set. de 2010

Lima Barreto, um autor na contramão

Lima Barreto, um autor na contramão


Triste fim de um escritor talentoso e original, marcado pela tragédia



Lima Barreto / Foto: Reprodução

Pelos idos de 1920, os grupos elegantes de cariocas que costumavam fazer da Avenida Rio Branco o lugar predileto de suas flâneries cotidianas (assim, em francês, língua da moda então), deparavam às vezes com um espetáculo pouco habitual: o de um mulatão desleixado, sujo, ensebado e precocemente envelhecido, mais parecido com um pobre-diabo, quase um mendigo, a quem, no entanto, muitos transeuntes tiravam o chapéu, cumprimentando. Alguns até mesmo se detinham para conversar com ele durante bastante tempo, animadamente. Uma tarde – conta um poeta da época, Dante Milano –, algo mais espantoso ainda acontecera: um elegante carro preto encostara no meio-fio e dele saltara talvez o homem mais importante da cidade, o ex-senador e prefeito Paulo de Frontin, somente para trocar um dedo de prosa com aquele mulato quase negro, de face avermelhada pela bebida, um marginal andrajoso que não dispensava uma palheta amassada assentada na carapinha grisalha – o grande romancista e jornalista que atendia pelo sonoro nome de Afonso Henriques de Lima Barreto.

Infelizmente, o prestígio, o reconhecimento merecido e tardio que a sociedade parecia, enfim, lhe conceder, nada mais puderam fazer para prorrogar sua vida sofrida. Ele faleceria em 1922, aos 41 anos – como Kafka –, com o organismo completamente arruinado pela bebida e por doenças venéreas, marcando com o signo da tragédia uma página das mais importantes de nossa história literária.

Aquele que nunca foi rei

O nome Afonso Henriques não lhe foi dado, como se poderia pensar, em homenagem ao primeiro rei de Portugal. Só para se ter uma ideia da atmosfera racista e preconceituosa em que teve de viver, basta lembrar um fato relatado por seu melhor biógrafo, Francisco de Assis Barbosa: quando Lima cursava a Escola Politécnica (não chegou a se formar engenheiro), ouviu um aluno veterano comentar: “Vejam só! Um mulato ter a audácia de usar o nome do rei de Portugal...” Henriques era nome que lhe vinha de seu pai, João Henriques de Lima Barreto, um mulato que nascera liberto, filho de escrava com português. Sua mãe, a mulata Amália Augusta, era uma “cria” (possivelmente filha bastarda) da importante família Pereira de Carvalho.

João Henriques, aos 14 anos, já era um excelente tipógrafo e trabalhou em alguns jornais. Mais tarde, com a proteção de Afonso Celso de Assis Figueiredo, visconde de Ouro Preto, conseguiria obter um emprego de tipógrafo na Imprensa Nacional (então chamada apenas de Tipografia Nacional). Com o advento da República, porém, seu protetor, que chefiara o último gabinete monárquico, foi obrigado a exilar-se, e seu protegido foi demitido sumariamente por partilhar o credo monarquista. Como já tinha numerosa família, aceitou um emprego de almoxarife na Colônia de Alienados, situada na ilha do Governador. Nesse emprego manteve-se de 1891 a 1902, quando teve um surto psicótico e foi obrigado a aposentar-se. Todo o encargo da família caiu assim sobre os ombros do primogênito, Afonso, que aos 21 anos foi obrigado a interromper os estudos para cuidar dos irmãos, levando até o fim da vida também o fardo do pai esquizofrênico, encerrado em casa, extravasando seus delírios com gritos lancinantes. João Henriques, que tantos sonhos ambiciosos tivera em relação ao filho mais velho, acabou por se tornar o fator mais forte do fracasso de sua vida. Não resistindo à morte do filho, em 1922, faleceu apenas 48 horas depois dele, e ambos foram enterrados na mesma campa.

Lima Barreto não se casou nunca, e enveredou pelo caminho do alcoolismo muito cedo. Era um solitário, revoltado e deprimido, porque, dizia, “nunca amei nem fui amado”. Em tão penosas circunstâncias – pobreza, doença, frustração sexual e afetiva, exclusão social – desenvolveu, porém, os recursos de seu talento para retratar com pleno conhecimento as minúcias do Rio de Janeiro de sua época, uma sociedade eivada de contradições, marcada pela discriminação e pelo preconceito de várias ordens, em um quadro de total injustiça social.

Lima e Machado

O paralelismo entre as condições de vida em que os dois grandes escritores vieram ao mundo tem sido estabelecido por vários historiadores – separadas embora suas vivências pelo espaço de duas gerações, pois Machado de Assis já contava 42 anos quando Lima nasceu, justamente naquele ano de 1881 em que o bruxo do Cosme Velho, que já ajudara a fundar a Academia Brasileira de Letras, lançaria seu primeiro grande romance da maturidade, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Os dois partilhavam o problema da pobreza, da origem humilde, da cor. Tanto um como outro ficaram órfãos de mãe muito cedo, Machado aos 10, Lima de 6 para 7 anos. Mas se Joaquim Maria encontrou logo na madrasta Maria Inês uma substituta carinhosa, o mesmo não aconteceu com Afonso, mais fundamente atingido pela tragédia e que confessava ter-se fechado irremediavelmente em si depois da morte da mãe, sem ter nunca mais “crises de alegria”. Em relação às mulheres, conservaria sempre uma timidez doentia, e só conseguia satisfazer seu apetite sexual com prostitutas de baixo nível.

Tiveram, ambos, padrinhos bem situados, políticos importantes, que lhes possibilitaram acesso à melhor sociedade. Porém, se Machado foi criado na casa de dona Maria José de Mendonça Barroso (viúva do senador Bento Barroso Pereira), com o maior carinho, da mesma proteção não gozou o afilhado de Afonso Celso de Assis Figueiredo, que até o primeiro prenome dele herdara. Na verdade, o orgulhoso e distante visconde somente aceitara o apadrinhamento usando seu estoque de solidariedade senhorial para com o humilde tipógrafo de cor, que o idolatrava. O menino Afonso muito pouco conheceu o aristocrático xará que lhe custeava os estudos. Sentia-se mesmo profundamente humilhado com essa situação de dependência. Relata ainda seu biógrafo “um encontro desastroso” entre os dois, quando já entre João Henriques e seu protetor político começavam a esfriar as relações de compadrio. Uma cena ficaria marcada como das lembranças mais desagradáveis da vida, na memória do escritor. O visconde havia deixado transparecer, na má vontade com que recebera pai e filho, o profundo desdém em que os tinha. Teria mesmo dito, em relação à grande ambição que João tinha de fazer o filho doutor: “Todo mundo quer ser doutor...” Em seu Diário Íntimo, muito mais tarde, Lima Barreto faria referência a uma antiga doação do benfeitor, nestes termos: “E os 10$000 do tal visconde. Idiota. Os protetores são os piores tiranos”.

Fosse lá como fosse, a generosidade de Afonso Celso, forçada ou não, permitiria ao menino Afonso ter o privilégio de uma educação formal (coisa que Machado de Assis nunca pôde ter) nos melhores colégios, primeiro em Niterói e depois no Rio de Janeiro, onde foi interno do tradicional Colégio Pedro II, criadouro dos rebentos das famílias abastadas e nobres da Corte.

No campo profissional, também não poderiam diferir mais as carreiras de um e de outro, tanto no jornalismo como na literatura – Machado, aos 16 anos, já contava com a proteção de importantes escritores, como Manuel Antonio de Almeida, e foi imediatamente introduzido e empregado na “grande imprensa” da época, onde sempre se manteve. Na literatura, nunca teve dificuldade de publicar e foi sempre respeitado – teve, sobretudo, tempo para amadurecer suas obras, inclusive por ter vivido muito mais que Lima Barreto. Com um emprego público estável, com a felicidade doméstica desfrutada com Carolina, as antigas condições consideradas “difíceis” de sua vida – pobreza, cor, orfandade, gagueira e epilepsia – foram satisfatoriamente minimizadas ou dissolvidas.

Já Lima Barreto, que partilhava com Machado circunstâncias raciais e econômicas, teve de cumprir um destino de “maldito”. Mesmo como jornalista e escritor, enfrentou sempre dificuldades para inserir-se na grande imprensa de seu tempo, sofreu discriminações de toda ordem, foi obrigado a limitar suas colaborações à imprensa alternativa e a publicar às próprias custas a maior parte de seus livros. E mesmo quando já firmava reputação como romancista, viu-se rejeitado duas vezes justamente “na casa de Machado de Assis” – a Academia Brasileira de Letras. Se Machado conseguiu, porém, manter isenção de julgamento com vistas à obra de Lima, este alimentou conscientemente sua posição crítica em relação à literatura machadiana, definindo seu estilo como “chocho” e seus personagens como “figuras ocas”.

Diferenças de temperamento e de sorte acabaram por colocar essas duas figuras de romancistas – considerados hoje os mais importantes de nossa literatura, antes do modernismo – em polos opostos em termos de sucesso/fracasso existencial. Porque, fator preponderante de desgraça, sobre Lima pairou inexoravelmente, desde muito cedo, também o fantasma da loucura familiar, uma terrível herança genética da qual nunca conseguiria se livrar e que terminaria por vitimá-lo.

A casa da loucura

Em importante tese de doutorado defendida na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Literatura da Urgência – Lima Barreto no Domínio da Loucura, e publicada em 2009 pela Annablume, Luciana Hildalgo examina em profundidade o relacionamento entre a doença mental e a obra do escritor. Ela concentra seu estudo nos escritos que Lima empreendeu ao ser pela segunda vez na vida internado por alcoolismo em um hospital psiquiátrico, em 1919 – o denominado Diário do Hospício, que depois aproveitaria em um romance que deixou inacabado, Cemitério dos Vivos. Nessa circunstância, a escrita teve uma função mais do que catártica para ele. Representou, como diz Luciana Hidalgo, “uma saída de emergência à abstinência, substituta da bebida”.

Salvo à força do delírio etílico, Lima pôde analisar a si próprio e também descrever a própria instituição psiquiátrica de maneira lúcida – com todas as suas incoerências, injustiças, contradições e abusos médicos, que só seriam totalmente expostos cerca de 40 anos mais tarde, por Michel Foucault e pela corrente da antipsiquiatria de Franco Basaglia.

O Hospital de Alienados da Praia Vermelha – fundado em 1852 por dom Pedro II – era, nas primeiras décadas do século passado, uma instituição de caráter carcerário, onde a violência contra os pacientes, inclusive física, era considerada elemento de cura, em um tempo anterior até mesmo a contenções mais científicas, embora também superadas mais tarde, como o eletrochoque. Nesse ambiente se buscava e conseguia a aniquilação da personalidade do paciente, sua integração no estereótipo do “louco”, um ser desprovido de vontade e discernimento, incapaz de gerir a própria vida.

Felizmente para o escritor, ele fora dotado de um temperamento que via na revolta, na contestação, o meio de lutar pela sobrevivência, pela não dissolução do ego. Assim, desde os primeiros dias desse período de internação – como nos descreve Luciana –, ele não se conformou por ter sido internado “como indigente” e tratado como pária social. Não tendo a princípio obtido apoio da equipe médica para suas reivindicações, usou inteligentemente de outros meios para conseguir uma inserção mais digna nas várias classes de internados – graças a um funcionário que trabalhara com seu pai, passou à seção Calmeil, que funcionava em um pavilhão onde ficava a biblioteca. Assim, não somente obteve um alojamento individual, mais condizente com sua condição, como autorização para passar seus dias lendo e escrevendo.

A reclusão hospitalar acabou por lhe proporcionar tempo e tranquilidade para ressuscitar tesouros enterrados na memória: por exemplo, lembrando-se do livro que mais adorara na infância, Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, projetava a si próprio no misterioso e antropófobo herói, o capitão Nemo, do Nautilus – homem mítico, capaz de transformar seu submarino em um mundo paralelo. Como diz Luciana Hidalgo, também Lima, como Nemo, “imaginou-se fora da humanidade, um associal vivendo da ilusão do bem-estar à margem da civilização, sem ligação sentimental alguma no planeta”. Partindo dessa utopia, pôde examinar – aos 39 anos – sua existência até aquele momento, de maneira extremamente lúcida. Privado da bebida, estava livre para mergulhar no sonho lúcido que é a literatura.

O grande escritor

A obra completa de Lima Barreto compreende atualmente 11 livros, sendo quatro póstumos. Em 1919, já havia publicado cinco, entre eles seus principais romances, Recordações do Escrivão Isaías Caminha em 1909, Triste Fim de Policarpo Quaresma em 1915, e no próprio ano da segunda internação, 1919, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. São romances voltados para a realidade social e nos quais transparece a ideologia política que adotara desde cedo, o maximalismo antecessor do comunismo, o credo anarquista que o colocava ipso facto na posição de escritor marginal – para ele, a literatura tinha uma função social e o escritor não podia escapar à missão de combater a injustiça.

Com os dois livros que publicou ainda em vida após o período de internação, em especial o inacabado romance Cemitério dos Vivos (1920), as duas linhas de sua trajetória literária, a social e a introspectiva, convergem, enriquecendo de maneira extraordinária a perspectiva sob a qual toda a sua obra está atualmente sendo avaliada, inclusive no exterior.

Durante mais de três décadas após sua morte, Lima era ainda visto como um vago “predecessor do modernismo” e sua obra tida como malfeita, insatisfatória. Somente em 1956, com a publicação de sua obra completa em 17 volumes, sob a direção de Francisco de Assis Barbosa e com a colaboração de Antônio Houaiss e M. Cavalcanti Proença, Lima Barreto começou a ocupar o lugar que verdadeiramente lhe cabe em nossa história literária. Seus romances e contos têm sido traduzidos para o inglês, o francês, o russo, o espanhol, o tcheco, o japonês e o alemão. Teses de doutoramento o tiveram como tema nos Estados Unidos e na Alemanha. Congressos e conferências foram realizados em todo o Brasil, por ocasião de seu centenário de nascimento (1981), resultando em inúmeros livros publicados, entre ensaios, bibliografias e estudos psicológicos do autor e sua obra.

Pois, como afirma o crítico alemão Berthold Zilly em artigo escrito em 2006, “Lima Barreto e a Cultura Nacional”, por ocasião da comemoração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, Triste Fim de Policarpo Quaresma redescobre o país, “com sua história, sua cultura, suas excelências, mas também com suas mazelas, seus desmandos e os possíveis meios de combatê-los”. A obra, diz Zilly, é uma grande indagação sobre o Brasil, capaz de estimular uma autorreflexão metacrítica sobre o caráter e os destinos da nação.

Diversos escritores jovens estudam hoje a obra de Lima Barreto em toda a sua complexidade, e são várias as teses já feitas ou em andamento nas universidades, tanto brasileiras como estrangeiras. Sua absoluta diferenciação do estilo de Machado de Assis não mais o coloca em posição de inferioridade, como foi anteriormente feito – mas possibilita que sejam ambos avaliados de maneira diversa, pelo valor e originalidade que apresentam em atitudes antitéticas na descrição da sociedade brasileira de seu tempo: Machado destrói a sociedade com um estilo sobriamente corrosivo e fino, enquanto Lima Barreto faz a mesma coisa com sua virulência passional.

Alfredo Bosi, após lhe consagrar dez páginas em sua História Concisa da Literatura Brasileira, classifica o conjunto de sua obra como “de amplo espectro”, por demonstrar “quanto Lima Barreto podia e sabia transcender as próprias frustrações e se encaminhar para uma crítica objetiva das estruturas que definiam a sociedade brasileira do tempo”. Por isso, acrescenta, “a obra de Lima Barreto significa um desdobramento do realismo no contexto novo da 1ª Guerra Mundial e das primeiras crises da República Velha. Sua direção de coerente crítica social seria retomada pelo melhor romance dos anos 1930.”

6 de set. de 2010

o olhar feminino


O que há no olhar feminino?

Na luz refletida pelos olhos femininos pode-se ver todo um matiz de
vivacidades irreproduzíveis em qualquer outro material.
Os olhos dos pássaros que caçam têm olhos que focam na frente, como os dos
humanos, enquanto os pássaros que são caçados possuem olhos em ambos
os lados da cabeça, para cobrir um grande campo de visão. E porque os olhos
das mulheres,sem se diferenciar tanto dos homens, são tão capazes de nos
fazer sentir o que por qualquer outro meio não pode ser sentido?
Para os oftalmologistas todos os olhos são iguais, crêem que não passam de
um mosaico de cristalinos, vasos, globos, órbitas, córneas, íris, retinas...mas há
diferenças. Isto pode confirmar quem já foi encarado por AQUELA mulher. Não
qualquer uma, mas aquela que, dentre milhões, nos escolheu para encarar. Em
tal situação especial, os olhos delas parecem mais brilhantes, mais vivos,
enuviados de mistério e mais coloridos...não importa se são azuis, verdes,
negros ou castanhos. Não são comuns, são os dela.
O encanto do homem pelo olhar feminino, independente de qualquer
maquiagem, não surgiu há alguns séculos atrás. É bem provável que nossos

ancestrais homo-sapiens já percebessem o reflexo das fogueiras nos olhos de
suas companheiras nas escuras noites do início dos tempos. E eles devem têlas
amado da forma que sua evolução sentimental,a aquela altura permitia.
Tão comunicativos quanto o corpo ou os gestos e a fala, os olhos das mulheres
podem ser encarados como uma ameaça. Bem sabiam disso os guerreiros
talibãs do Afeganistão que não contentes em cobrir todo o corpo de suas
mulheres com a burka usavam também uma tela, como acessório, para cobrirlhes
os olhos.
O olhar feminino é um tema recorrente na música, nas artes plásticas e na
literatura. Exemplo disso é a música "Este seu olhar" de Tom Jobim, o olhar da
Monalisa (1503) de Da Vinci, o das prostitutas em “As donzelas de Avignon”
(Les demoiselles d'Avignon, 1907) de Picasso ou o olhar esculpido, frio e
soberbo da Vênus de Milo (c. 130 a. C.). Há dois casos célebres na literatura
que podem significar uma questão de influência: "Os sofrimentos do jovem
Werther (Die Leiden des jungen Werthers, 1774)" de Goethe e "Dom
Casmurro" (1899) de Machado de Assis.
Os sofrimentos do jovem Werther é considerado por muitos, o romance que
deu origem ao romantismo e levou a uma onda de suicídios por toda a Europa.
A paixão profunda, não correspondida e tempestuosa do personagem inspirou
muitos escritores da geração romântica do mundo inteiro, dentre eles, o nosso
Álvares de Azevedo. Mas seria bom nos perguntarmos: por que não, o realista
Machado de Assis? Tudo bem, ele era realista...mas o tempo de sua infância
era romântico. E foi nesse ambiente que ele foi educado.
No livro de Goethe, o jovem Werther escreve uma série de cartas para seu
amigo Wilhelm. Lá o jovem aristocrático se encanta com a paisagem idílica e
os habitantes do lugarejo de Wahlheim. Certo dia indo a um baile, ele em um
coche vai buscar a bela Charlotte S...(este artifício de não terminar nomes
também foi usado por Joaquim Manuel de Macedo) e passa o resto do livro em
delírios, idealizando a amada e se encantado pelos olhos de "Lotte". Chama a
atenção no livro o fato de Lotte ter olhos negros,porque Werther a eles se
refere constantemente em passagens como:
• "como me deleitava, durante a conversa, com aqueles olhos negros...como toda minha alma era atraída pelos lábios vívidos e pela
magnitude de seus pensamentos, não ouvia as palavras com as quais
ela se expressava...";
• "(...) Deus sabe com que deleite, via-me preso em seus braços e nos
seus olhos repletos da mais verdadeira expressão do mais puro e mais
sincero prazer(...)";

• "Ela apoiou nos cotovelos e seu olhar percorreria a paisagem; olhou
para o céu e para mim e vi os seus olhos cheios de lágrimas(...)";
E olhei novamente para seus olhos (...)";
• "Foi o mais magnífico nascer do sol. A floresta úmida e os campos
frescos! As nossas acompanhantes adormeceram. Ela perguntou se eu
não queria fazer o mesmo; poderia ficar despreocupado com ela.
Enquanto vir esses olhos abertos”, disse-lhe e fitei-a “não há perigo de
fechar os meus”.
E há outras referências mais sobre os olhos de Lotte por todo o livro. Para não
estragar a leitura de quem ainda não leu este excepcional romance da literatura
alemã, deve-se esclarecer apenas que Charlotte antes de conhecer Werther
era noiva de um "homem muito distinto" e candidato a um cargo importante que
estava em viagem de negócios.

30 de ago. de 2010

cotas nas universidades federais

70% das faculdades públicas já adotam cotas ou bônus Em 77% dos casos, decisão de adotar política partiu da própria instituição

Levantamento feito por pesquisadores do Rio mostra que estudantes de escolas públicas são os mais beneficiados

ANTÔNIO GOIS
DO RIO

Mesmo sem lei federal que as obrigue a isso, sete em cada dez universidades públicas no Brasil já adotam algum critério de ação afirmativa, seja ele cota ou bônus no vestibular para alunos de escolas públicas, negros, indígenas e outros grupos.
O levantamento foi feito pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos, ligado à Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
De 98 universidades federais e estaduais, 70 adotam ação afirmativa (71%). Em 77% dos casos, a decisão de adotar cotas ou bônus surgiu da própria universidade.
Em apenas 16 instituições, a ação foi motivada por uma lei estadual. Não há lei federal -um projeto tramita no Congresso- que obrigue estabelecimentos da União a adotar cotas ou bônus.
O trabalho mostra também que são alunos de escolas públicas os mais beneficiados e que as cotas são mais utilizadas do que os bônus.
No caso das universidades que trabalham com cotas raciais, o critério utilizado para definir quem é negro ou indígena é quase sempre (85% dos casos) a autodeclaração.
Nos demais, há exigência de fotografias ou comissões de verificação, métodos polêmicos por barrar candidatos que se consideram negros.
Para João Feres Júnior, um dos pesquisadores, em quase todas as 40 universidades que beneficiam negros, há preocupação de evitar que as vagas sejam ocupadas pelos de maior renda -o candidato deve comprovar carência ou estudo em escola pública.

DEBATE
Para ele, o crescimento de instituições que, sem a obrigação legal, adotam ações afirmativas reflete o amadurecimento do debate sobre a desigualdade racial no país.
Ele diz que, quando coordenou o Diretório Central de Estudantes da Unicamp, em 1986, o tema não era discutido nem nas ciências sociais. "Não passava pelas nossas mentes discutir a pauta."
Mesmo quem se beneficiou do avanço nas políticas de ação afirmativa aponta a falta de debate. É o caso de Wellington Oliveira dos Santos, 25, que se formou em psicologia em 2009 na Universidade Federal do PR, onde ingressou na cota para negros.
Santos reclama que, na época de sua graduação, não houve debates em seu curso sobre os motivos que estão levando as universidade públicas à adoção das cotas.

Colaborou DIMITRI DO VALLE, de Curitiba


Criação de lei federal divide a opinião de especialistas

Ex-presidente do IBGE diz que lei prejudica autonomia universitária

Apesar de não haver dados consolidados, cotistas da Uerj e UFPR têm notas semelhantes às dos demais alunos

DO RIO
DE CURITIBA

O fato de a maioria das universidades com ações afirmativas adotar a prática por iniciativa própria divide especialistas sobre a necessidade de uma lei federal.
Para Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade no RJ, uma lei federal é desnecessária e desrespeita a autonomia universitária.
"É melhor ver isto acontecer por um movimento espontâneo do que por uma lei que obrigue todas a adotarem um critério que coloque uma camisa de força", diz.
Já Renato Ferreira, gerente de projetos da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, defende uma lei por entender que, em algumas universidades, os critérios ainda são tímidos.
"Sem uma lei que regule o tema, demoraremos muito mais tempo para promover a igualdade que desejamos."

BENEFICIADOS
Como a maioria adotou cotas ou bônus há menos de quatro anos, não há dados consolidados sobre o desempenho dos beneficiados.
Na Uerj, uma avaliação mostrou que os alunos cotistas têm menor evasão e notas semelhantes aos demais na maioria dos cursos.
Na UFPR (Universidade Federal do Paraná), estudantes negros e oriundos de escolas públicas têm conseguido, na média, o mesmo rendimento nas avaliações que os outros universitários.
O sistema de cotas na UFPR, aprovado em 2003 por iniciativa da própria instituição, tem 8.000 beneficiados num total de 22 mil alunos.
Para o professor Paulo Vinícius Batista da Silva, coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UFPR, ainda há desafios a serem superados. "Os cotistas são alvos de desconfiança."

ANÁLISE

Universidades precisam ter autonomia e fazer o acompanhamento dos alunos

CIBELE YAHN DE ANDRADE
ESPECIAL PARA A FOLHA

A educação pode ser considerada, por um lado, como um dos principais mecanismos de mobilidade social.
A efetividade deste depende essencialmente de que o acesso e o desempenho escolar não reproduzam as desigualdades em relação à renda familiar e à condição de raça e cor, entre outras que marcam a heterogeneidade da população brasileira.
No entanto, o maior impacto da educação, sobretudo superior, é o produzido no desenvolvimento cultural, que pode se traduzir em desenvolvimento econômico.
Desenvolver o ensino superior é estratégia essencial ao interesse público mais elevado e não somente algo que se defina no âmbito do interesse privado, da ascensão social dos indivíduos.
As universidades podem ter motivações diferentes para selecionar seus alunos. Mas a ação efetiva da educação no indivíduo não termina no fim do curso superior.
Aí se iniciam os desafios do aprendizado constante. Este ponto é fundamental e pode ser mal compreendido. A aceitação do vestibular como mecanismo isento de seleção, valioso num país acostumado a privilégios, tende a fazer crer que o melhor aluno é aquele com a nota mais alta e isso confunde bom desempenho num exame com capacidade de desenvolvimento intelectual.
Este último pode ser encontrado num leque mais amplo de estudantes de origens diversas. O que boas universidades devem buscar é a composição equilibrada de -conhecimento de conteúdos fundamentais e capacidade de desenvolvimento intelectual. O desafio só pode ser enfrentado com autonomia das universidades e estudos de acompanhamento dos selecionados em processos regulares ou em ações afirmativas formulados para corresponder a seus objetivos e propósitos maiores.

CIBELE YAHN DE ANDRADE é pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp

29 de mai. de 2010

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

7 de mar. de 2010

Poesia marginal dos anos 70 ganha antologia e dialoga com novos poetas

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
Os anos 70 ficaram marcados pela truculência da ditadura, mas também pelo chamado desbunde, versão mais debochada do movimento hippie. Essa dicotomia entre desencanto e celebração da vida ficou bem evidente nos versos dos poetas da época, ditos marginais: ao mesmo tempo em que resistiam à repressão com espírito utópico e ironia típicos da contracultura, buscavam a intensidade prosaica das experiências sensoriais - o popular sexo drogas e o que mais "pintar". O tom era coloquial, despretensioso, libertário.
  • Divulgação

    Antologia "Destino: Poesia" (esq.) resgata poesia marginal dos anos 70; os novos "Logocausto" (c) e "Esquimó" dialogam, mesmo que por contraste, com a poesia da contracultura

Ana Cristina César, Cacaso, Torquato Neto, Waly Salomão e Paulo Leminski, agora reunidos nessa pertinente e divertida antologia organizada pelo crítico Italo Moriconi, tinham esses traços em comum, cada qual à sua maneira.

Ana Cristina e Torquato pintavam seus poemas com cores um tanto mais escuras, reveladoras de um desespero íntimo, um desentendimento grave com a vida. Por mais que tentassem infiltrar certo humor em seus escritos - e, no caso de Torquato, a melodia que gerou algumas canções memoráveis, o que sobressaía era quase um pedido de socorro. Ambos aceleraram de encontro ao suicídio. Tornaram-se mitos românticos, na acepção ampla da palavra.

Cacaso e Leminski pendiam mais para o poema bem-humorado, feito de frases curtas, ritmo leve, ideias originais. O primeiro, conterrâneo e, em certo sentido, herdeiro de Drummond, buscava o riso inteligente, o comentário ácido, muitas vezes de cunho político. Já o curitibano Leminski, um dos mais cultuados até hoje dentre os cinco, tinha um estilo único, algo entre o beatnik e o concretismo, entre a confissão embriagada e o sóbrio hai kai.

Waly Salomão, por sua vez, era o tropicalista do grupo, o mais colorido, expansivo, performático. Seus poemas tinham aquele jeito de conversa meio louca, um pouco como no caso de Ana Cristina, que no entanto era mais experimental, "difícil".

"Destino: Poesia", com ótima introdução de Moriconi e pequenas biografias dos poetas, é um retrato fiel da poesia dos 70, cúmplice da música popular, diversa mas unida na resistência à violência dos militares e à sisudez dos "caretas". Vale por cada flash em technicolor.

Dois novos
Leandro Sarmatz e Fabrício Corsaletti são dois poetas nascidos nos 70 que de certa forma dialogam, mesmo que por contraste, com a poesia do desbunde e da contracultura. Dos dois, o gaúcho Sarmatz, com seu breve e valioso "Logocausto" (Editora da Casa), uma reunião de poemas que foi dilapidando ao longo dos anos, é o menos ligado à geração do mimeógrafo, como também ficaram conhecidos os contemporâneos de Torquato Neto e Ana Cristina César. Se é que se pode falar em filiação, ele está mais para o modernismo anterior, "estrangeiro", de Cummings, Celan e William Carlos Williams. Seus poemas, elaborados com rigor autocrítico, são revestidos de ironia sofisticada (no melhor dos sentidos), e permeados por cultas referências literárias. A condição judaica - como sugere o neologismo do título, é um tema presente em cada linha, implícita ou diretamente. Para encarar a história sofrida de seus antepassados, o autor, também dramaturgo, chega a inventar uma nova ciência dos sentimentos: a "Ecologia da Memória", ao mesmo tempo em que desconfia da religião e seu "messias fajuto". Com um pessimismo que não dispensa o humor e até a escatologia, declara que "toda graça está no achar-se em meio à perda" e que as palavras são "uma praga, um lamento surdo: um exílio".

Já Corsaletti talvez ficasse mais à vontade entre os poetas brasileiros dos 70. Tal como Leminski e Cacaso, pratica o verso curto, de ideias bem-humoradas e diretas, às vezes próximas de um slogan surreal ou existencialista, ou mesmo da piada, que surte efeito imediato. Os poemas de "Esquimó" (Companhia das Letras), claros, concisos, sugerem espaços livres das sombras, em meio a uma floresta de possibilidades. Nos melhores momentos atingem o nervo (mas com anestesia): "- meu único gesto sincero/ depende de garfo e faca". Também adepto das referências - no caso, mais "pop", o autor recorre a um certo minimalismo, com variações sutis e repetições eloquentes. E "comete" divertidos poemas de amor e desejo, como na declaração à atriz Eva Green, em "Plano", e no poema final, o melhor do livro, "Seu Nome", no qual o nome da amada, nunca dito, batiza todas as coisas.



"DESTINO - POESIA"
Autor: Diversos
Editora: José Olympio
Páginas: 160
Preço: R$ 28

"LOGOCAUSTO"
Autor: Leandro Sarmatz
Editora: Editora da Casa
Páginas: 36
Preço: R$ 12

"ESQUIMÓ"
Autor: Fabrício Corsaletti
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 80
Preço: R$ 31

4 de mar. de 2010

Quatro décadas de corrupção, pobreza e abusos no futebol brasileiro

Ano de Copa do Mundo é sempre garantia de bons lançamentos na área editorial. O primeiro tiro certeiro de 2010, indispensável para estudantes de jornalismo e interessados em jornalismo esportivo, é “11 Gols de Placa – Uma seleção de grandes reportagens sobre o nosso futebol”, organizado pelo jornalista Fernando Molica.

O livro reúne onze trabalhos de fôlego sobre o “lado B” do futebol brasileiro, ou seja, sobre os graves e perpétuos gols contra que vem marcando ao longo do tempo. Como escreve Molica, explicando a sua seleção, é “uma escalação que mistura corrupção, pobreza, desemprego, falsificação de documentos, abuso e exploração de menores”.

A primeira reportagem é o premiado texto de João Maximo, “Futebol brasileiro: o longo caminho da fome à fama”, publicado no “Jornal do Brasil”, em 1967, no qual o jornalista descreve os sérios problemas de saúde – de subnutrição a sífilis – que enfrentavam então os jogadores dos principais clubes brasileiros.

O livro traz ainda uma segunda série publicada no final da década de 60, “O Jogador é um escravo”, na qual Michel Laurence, José Maria de Aquino e Luciano Ornellas mostraram, em “O Estado de S.Paulo”, como os jogadores de futebol se submetiam ao desígnio de dirigentes esportivos, aceitando tratamentos médicos criminosos, assinando contratos em branco e não recebendo os seus direitos básicos.

"11 Gols de Placa" dá, então, um salto até a década de 90, e apresenta reportagens sobre assuntos que o leitor deve se recordar. Para citar apenas algumas, há a série de “O Globo”, assinada por Marco Penido e equipe, sobre corrupção e negociação de resultados na Federação de Futebol do Rio de Janeiro, e a descoberta, por Sergio Rangel e Juca Kfouri, da “Folha de S.Paulo”, das contas furadas da CBF e do contrato da entidade com a Nike.

Entrando no século XXI, a seleção de Molica mostra a persistência de velhos problemas. A série de Diogo Olivier Mello, publicada no “Zero Hora”, em 2001, revela as desigualdades sociais no mundo da bola, além dos graves problemas que jogadores enfrentam durante e ao final da carreira. O livro se encerra com a reportagem de Andre Rizek e Thais Oyama, publicada em “Veja”, em 2005, sobre a “máfia do apito” montada para fraudar resultados de partidas de futebol.

Todas as reportagens são acompanhadas de textos introdutórios, preparados especialmente pelos autores para o livro, nos quais revelam o “making of” do trabalho que realizaram e contam bastidores não incluídos nos textos.

“11 Gols de Placa” (378 págs., R$ 49,90) é o terceiro título de uma parceria entre a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a editora Record, que já rendeu também “10 Reportagens que Abalaram a Ditadura” e “50 Anos de Crime”.

2 de mar. de 2010

Se os Tubarões Fossem Homens

Bertold Brecht

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

***

Um Homem Pessimista

Um homem pessimista
É tolerante.
Ele sabe deixar a fina cortesia desmanchar-se na língua
Quando um homem não espanca uma mulher
E o sacrifício de uma mulher que prepara café para
seu amado
Com pernas brancas sob a camisa -
Isto o comove.
Os remorsos de um homem que
Vendeu o amigo
Abalam-no, a ele que conhece a frieza do mundo
E como é sábio
Falar alto e convencido
No meio da noite.

...

Esse Desemprego

Meus senhores, é mesmo um problema

Esse desemprego!

Com satisfação acolhemos

Toda oportunidade

De discutir a questão.

Quando queiram os senhores! A todo momento!

Pois o desemprego é para o povo

Um enfraquecimento.

Para nós é inexplicável

Tanto desemprego.

Algo realmente lamentável

Que só traz desassossego.

Mas não se deve na verdade

Dizer que é inexplicável

Pois pode ser fatal

Dificilmente nos pode trazer

A confiança das massas

Para nós imprescindível.

É preciso que nos deixem valer

Pois seria mais que temível

Permitir ao caos vencer

Num tempo tão pouco esclarecido!

Algo assim não se pode conceber

Com esse desemprego!

Ou qual a sua opinião?

Só nos pode convir

Esta opinião: o problema

Assim como veio, deve sumir.

Mas a questão é: nosso desemprego

Não será solucionado

Enquanto os senhores não

Ficarem desempregados!

10 de jun. de 2009



DEFENESTRAR


LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO




Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
-- Os hermeneutas estão chegando!
-- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam
a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
-- Alô...
-- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
-- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser um barulho que o corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico.
Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
-- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
-- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata. Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
-- Lês defenestrations. Devem ser proibidas.
-- Sim, monsieur le Ministre.
-- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
-- Sim, monsieur lê Mnistre.
-- Com prédios de três, quatro andares, ainda era possível. Até divertido. Mas, daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
-- É essa estranha vontade de jogar alguém ou algo pela janela, doutor...
-- Humm, O Impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar -- diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada. Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
-- Querida...
-- Mmmm?
-- Há uma coisa que preciso lhe dizer...
-- Fala, Amor
-- Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:
-- Estou pronta para experimentar tudo com você! TUDO!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e babulcia:
-- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
-- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela?
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.

9 de mar. de 2009

Entrevista com o Padre Antonio Vieira
Reinaldo Polito
Com frequência ouvimos comentários elogiosos à competência do Padre Antonio Vieira. Os críticos referem-se a ele como tendo sido o maior escritor e o maior orador da língua portuguesa. Há aqueles, entretanto, que embora reconheçam seus méritos o coloquem em pé de igualdade e até em posição inferior a um seu contemporâneo, o autor de "Nova floresta", Padre Manuel Bernardes. O filólogo Silveira Bueno, com quem tive o privilégio de conviver durante seus últimos anos de vida, ao se referir à excelência dos textos produzidos por Rui Barbosa, disse: ninguém escreveu melhor que Rui Barbosa, somente o Padre Vieira, que foi o professor dele.A obra de Vieira é vastíssima. Há em seus sermões respostas para praticamente todas as perguntas que pudéssemos fazer. Por isso, resolvi imaginar uma entrevista hipotética com o grande pregador, especialmente levantando questões sobre a arte de falar em público. Polito - Algumas pessoas julgam que o senhor tenha nascido no Brasil, porque fazem essa confusão? Quem foram seus pais?Vieira - Talvez pelo fato de eu ter vindo ainda menino para o Brasil. Nasci em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608 e vim para o Brasil quando ainda não havia completado 8 anos. Sou filho de Cristovão Vieira Ravasco e de D. Maria de Azevedo.P - Como nasceu sua vocação para o sacerdócio?V - Iniciei meus estudos no colégio da Companhia de Jesus, na Bahia, e encontrei ali campo fértil para despertar minha vocação. Na verdade, descobri de um momento para outro que esta seria a vida que desejava. Em 1623 ouvi uma pregação do Padre Manuel do Carmo, que falava sobre as penas infernais, e fiquei encantado. Naquele momento senti que seria sacerdote. P - Como foi o início de seus estudos para se tornar sacerdote?V - Entrei para a Companhia de Jesus aos 15 anos de idade. Não foi fácil porque meus pais foram muito resistentes a essa minha decisão. Tive de fugir para ingressar no Colégio dos Jesuítas, e pude professar ainda jovem, com 17 anos, no dia 6 de maio de 1625.P - Seu gosto pela oratória também começou cedo?V - Aos 18 anos atuei como professor de retórica em Olinda. Escolhi como tema das minhas aulas as obras de Sêneca e Ovídio. Confesso, entretanto, que não me sentia bem com essa atividade fechada em sala de aula, meu anseio era o de me envolver com a vida missionária. Ao contrário do meu contemporâneo Manuel Bernardes, que sempre foi mais contemplativo, eu desejava ação.P - Não vejo o Padre Manuel Bernardes como sendo um homem apenas contemplativo.V - Eu não disse que ele foi apenas contemplativo, mas sim que foi mais contemplativo. E estava fazendo essa observação apenas para tentar esclarecer a vida que escolhi para mim.P - Quando se tornou padre?V - Os jesuítas pediram que eu ficasse na Bahia para concluir os estudos de Filosofia e Teologia. Assim, pude ser ordenado padre em 1635. Sempre gostei do púlpito. Em 1640 proferi um dos meus sermões preferidos, Sermão contra os holandeses - Bom sucesso das armas de Portugal contra a Holanda. P - Não foi nesse sermão que o senhor confrontou e interpelou Deus?V - Absolutamente. Meu objetivo foi o de levantar o ânimo da nossa gente, usando argumentos legítimos para persuadir Deus a nos ajudar. Jamais poderia confrontar Deus sendo eu um de seus servos mais fieis.P - O senhor disse, entretanto, nesse sermão - "Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os Homens, mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito Divino se há de dirigir todo o sermão".V - Sim, disse. Foi apenas um recurso retórico para chamar a atenção daqueles que me ouviam. Se na verdade eu desejasse apenas que Deus me ouvisse faria sozinho uma prece silenciosa, não um sermão.P - Acho difícil entender.V - Entenderia melhor se você estivesse lá no ano de 1640, diante de uma batalha.P - O senhor foi acusado de misturar religião com política. Em algum momento suas atividades favoreceram os poderosos?V - Essa é uma invencionice daqueles que nunca se conformaram com a sinceridade das minhas pregações. No Sermão dos Escravos, que preguei no ano de 1653, em São Luis do Maranhão, para a 1ª Dominga da Quaresma, enfrentei os mais poderosos pleiteando que libertassem os índios do cativeiro, pois considerava pecado mortal escravizá-los. E respondendo diretamente à sua pergunta uso as palavras que disse nesse mesmo sermão: "Subir ao Púlpito para dar desgosto, não é de meu ânimo, e muito menos a pessoas a quem eu desejo todos os gostos, e todos os bens. Por outra parte, subir ao Púlpito e não dizer a verdade é contra o ofício, contra a obrigação, contra a consciência; principalmente em mim, que tenho dito tantas verdades, e com tanta liberdade, e a tão grandes ouvidos. Por esta causa resolvi trocar um serviço de Deus por outro: e ir-me doutrinar os índios por essas aldeias". Se disser o que eu disse com tanta coragem é ser político, então eu fui um político.P - Embora, de certa forma, a nossa conversa esteja ligada a arte de falar em público, gostaria de ser mais específico neste assunto. Lendo seus sermões será possível aprender a falar em público?V - Não produzi os sermões com essa finalidade. O objetivo das minhas pregações sempre foi o de levar às pessoas a palavra de Deus. Por outro lado, não posso ser hipócrita e ficar com falsa humildade dizendo que não. Os sermões que proferi, embora tenham sido respaldados na verdade e na sinceridade, foram elaborados no que pude encontrar de melhor na arte oratória. A leitura criteriosa e crítica poderá dar ao leitor um bom caminho para o aprendizado da comunicação em público.P - O senhor recomenda algum em especial?V - O mais apropriado para essa finalidade é o Sermão da Sexagésima, que preguei na Capela real em 1655. Nessa pregação mostrei aos padres como deveriam agir para planejar e proferir seus sermões. Foi na verdade uma aula de oratória. Trato ali de todos os aspectos relevantes sobre o orador, o tema e os ouvintes. A respeito do orador analiso suas cinco "circunstâncias": a Pessoa, o Estilo, a Ciência, a Matéria e a Voz.P - O senhor julga que esses princípios pregados há mais de 300 anos teriam aplicação prática nos dias de hoje?V - Tenho certeza que sim. Quer algo mais apropriado para os dias de hoje que o trecho desse sermão? "Sabem, Padres Pregadores, por que fazem pouco abalo os nossos sermões? Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Por que convertia o Batista tantos pecadores? Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos." Diga-me, será que existe matéria mais atual que essas palavras? Já pensou se os nossos políticos, governantes, educadores, pregadores, todos, enfim, seguissem esses mesmos conselhos?!

25 de out. de 2008


Nua e Crua
Raimundo Correia



Doire a Poesia a escura realidade

E a mim a encubra! Um visionário ardente

Quis vê-la nua um dia; e, ousadamente,

Do áureo manto despoja a divindade;



O estema da perpétua mocidade

Tira-lhe e as galas; e ei-la, de repente,

Inteiramente nua e inteiramente Crua,

como a Verdade! E era a Verdade!



Fita-a em seguida, e atônito recua...

— Ó Musa! exclama então, magoado e triste,

Traja de novo a louçainha tua!


Veste outra vez as roupas que despiste!

Que olhar se apraz em ver-te assim tão nua?

... À nudez da Verdade quem resiste?!

24 de out. de 2008

ESTRELA CADENTE

Traço de luz… lá vai! Lá vai! Morreu.
Do nosso amor me lembra a suavidade…
Da estrela não ficou nada no céu
Do nosso sonho em ti nem a saudade!

Pra onde iria a ’strela? Flor fugida
Ao ramalhete atado no infinito…
Que ilusão seguiria entontecida
A linda estrela de fulgir bendito?…


Aonde iria, aonde iria a flor?
(Talvez, quem sabe?… ai quem soubesse, amor!)
Se tu o vires minha bendita estrela
Alguma noite… Deves conhecê-lo!

Falo-te tanto nele!…Pois ao vê-lo
Dize-lhe assim: “Por que não pensas nela?”

Florbela Espanca - Trocando olhares - 29/07/1916

27 de set. de 2008






Os quatro fabulosos que nasceram na semana mais fértil do futebol

Simon Kuper

Em 22 de setembro de 1976, um grande jogador de futebol nasceu no Rio. "Você sabe de onde veio o nome Ronaldo?" seu pai perguntou ao escritor Frans Oosterwijk anos depois. "Do médico que fechou as trompas da mãe após o nascimento dele. Há, há. Doutor Ronaldo, era o nome dele."

Este nascimento deu início à semana mais fértil da história do futebol. Quatro dias depois de Ronaldo, o pequeno Michael Ballack nasceu em Görlitz, na República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), seguido por Francesco Totti, em Roma, em 27 de setembro, e o quarteto é completado quando Andriy Shevchenko nasceu na aldeia ucraniana de Dvirkivschyna, em 29 de setembro.

Provavelmente havia algo na água naquela estação. Em 1º de julho de 1976, Ruud van Nistelrooy e Patrick Kluivert nasceram na Holanda. Seja qual for o segredo, à medida que o quarteto completa 32 anos e se aproxima da linha de chegada, é uma chance de esboçar uma espécie de carreira do astro moderno do futebol.

O primeiro ponto a despontar é que a origem pouco importa. No futebol moderno, é irrelevante ter vindo de uma aldeia evacuada após o desastre de Chernobyl (Shevchenko), de uma família romana tão tradicional que sua mãe sempre passava o uniforme de futebol (Totti), ou de Dr Salvador-Allende-Strasse, 168, Karl-Marx-Stadt, Alemanha Oriental (Ballack).

Todos os quatro cresceram sonhando com a grandeza. Totti inicialmente queria ser frentista de posto de gasolina, Ronaldo queria ser cantor, Shevchenko lutava boxe e Ballack foi identificado pelo governo da Alemanha Oriental como um futuro patinador de velocidade. Apenas Ronaldo foi um adolescente prodígio: aos 17 anos, ele já estava sentado no banco de reservas da Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1994, segundo dizem tremendo de medo de ser chamado para entrar em campo. A primeira coisa que comprou com sua nova riqueza foi um aparelho ortodôntico. Seus dentes "de coelho" atormentaram sua juventude.

Os outros três chegaram depois. Nenhum esteve presente no Mundial Sub-20 de 1995. Nunca mais se teve notícia do destaque do torneio, o brasileiro Caio.

Ballack foi quem levou mais tempo para se tornar um astro. Aos 22 anos, ele ainda não jogava regularmente na Bundesliga alemã. Seu período mais longo no anonimato pode ser o motivo para ser o único no quarteto a não ter se casado com uma modelo ou artista. Em vez disso, ele conheceu uma garçonete bonita no Café Am Markt, em Kaiserslautern. Enquanto isso, Ronaldo alternava entre uma legião de loiras, conhecidas coletivamente como Ronaldinhas.

Esta é a primeira geração de jogadores de futebol globalizados. Apesar dos primeiros jogadores ex-soviéticos a se mudarem para o Ocidente terem fracassado, Shevchenko trocou o Dínamo de Kiev pelo Milan e se adaptou instantaneamente. Ele apenas se mudou de um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum não tinha nada, para um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum anda vestido em Armani. Ele se casou com uma modelo americana.

Todos os quatro deram nomes cosmopolitas para seus filhos. Shevchenko batizou um filho de Jordan, em homenagem a Michael Jordan; os meninos de Ballack são Louis, Emilio e Jordi; e o filho de Ronaldo se chama Ronald, porque o jogador e sua esposa na época gostavam de comer no McDonald's. Até mesmo Totti, o eterno romano, deu o nome de Chanel a sua filha.

Com vinte e tanto anos, estes jogadores viviam uma sucessão de grandes momentos - apesar de Ballack não ter conseguido grandes conquistas. O tempo no topo se move rápido demais para permitir muito tempo para saborear. Em Yokohama, em 2002, nem uma hora depois de Ronaldo ter marcado dois gols na conquista da Copa do Mundo, um jornalista brasileiro lhe disse: "Nós não estamos interessados no passado, só no futuro". Ronaldo desejava conquistar o ouro olímpico? E quanto à próxima Copa do Mundo?

"Agora eu não quero sentir qualquer pressão a respeito do futuro", Ronaldo respondeu ao seu modo sereno. "Eu só quero comemorar." Ele finalmente tinha aprendido uma habilidade essencial para a vida no topo: dizer não.

Todos esses jogadores desenvolveram uma forma de lidar com o estresse. Totti permaneceu para sempre no Roma, onde é amado mesmo quando não joga toda semana. Shevchenko acabou de voltar ao Milan, o melhor clube para paparicar jogadores. Ronaldo priorizou as Copas do Mundo, freqüentemente ficando meses fora do clube de futebol. E quando Ballack chegou ao topo, ele já era maduro o suficiente para lidar com a pressão.

Nós agora podemos traçar o pico de cada um deles. O de Ronaldo foi em 2002; o de Shevchenko foi em 2004, quando foi eleito jogador europeu do ano; o de Totti foi 2006, quando conquistou a Copa do Mundo; enquanto Ballack quase conquistou tudo neste ano. Isso mostra que quanto mais à frente se joga, mais dependente o jogador se torna da aceleração e mais cedo é o seu pico. Ballack, o único meio-campista real do quarteto, é aquele que mais dura.

A jornada termina prematuramente. Gradualmente, as lesões cobram seu preço cumulativo. Totti e Ballack estão tendo dificuldade para retomar a forma. Shevchenko espera marcar seu primeiro gol nesta temporada antes de seu aniversário. Ronaldo está se recuperando em uma praia do Rio de outra lesão terrível no joelho, mas ainda não consegue dizer adeus: "Eu sinto tamanha paixão pelo futebol que estou pronto a fazer qualquer sacrifício para voltar". Ele insinua jogar no Manchester City.

Mas ele foi recentemente fotografado pela revista "Veja" em um iate, barrigudo, fumando e bebendo cerveja. De uma forma ou de outra, é assim que termina.

Tradução: George El Khouri Andolfato

26 de set. de 2008

Manhã de sábado. Chovia fino, uma garoa fria e constante. Acordei cedo pensando na noite passada. "É desconcertante rever um grande amor", dizia a a canção que tocava no rádio. Ontem tive a oportunidade de reencontrar Joana. Telegraficamente trocamos olhares furtivos. Nada acrescentar. Pelo vidro turvo da janela as flores vermelhas da bonilha pareciam roxas. Defronte a arvore vazia de pardais num jardim silencioso e verde, vejo o vulto silencioso de Beth. Ainda que chovesse, lá estava lá varrendo folhas inexistentes com uma capa amarela. TOC. mania de limpeza incurável. Os olhos de Joana ainda ~mantém aquele brilho juvenil dos quinze anos. Sua pele de um branco gasto convidavam ao toque. Impossível. Cabelos pretos encaracolados e finos. Olhos negros e nariz aquilino. Sorriso de comercial de tv. Os seios já não possuem aquela antiga firmeza... Ah! ... não entendo porque estou escrevendo essas coisas...
Bem isso não é um diário... Sei lá ....

1 de ago. de 2008

4 ● Público ● Domingo 27 de Julho de 2008

PORTUGAL

Literatura Autor Brasileiro eleito por maioria para principal distinção literária lusófona

Ubaldo Ribeiro ganhou Prémio Camões e foi o último a saber

Distinguido escritor “com obra densa” das culturas portuguesa, africana e brasileira
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Isabel Coutinho
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O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro é o vencedor do Prémio Camões 2008. E é caso para se dizer que o autor foi o último a saber.
Ontem, quando se realizou a conferência de imprensa num hotel de Lisboa, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, ainda não tinha conseguido entrar em contacto com o escritor brasileiro para lhe comunicar a decisão do júri. Bem tentaram atrasar o anúncio do prémio, mas de nada valeu. Ainda não se sabe quando o prémio - o mais importante da literatura lusófona - será entregue, mas Pinto Ribeiro disse que, em princípio, o montante deste ano será semelhante ao de 2007–100 mil euros.
O júri era presidido por Ruy Espinheira Filho (escritor, jornalista e professor da Universidade Federal da Bahia), e incluía Maria Lúcia Lepecki (professora na Universidade de Lisboa, que por motivos de saúde participou por via telefónica), Maria de Fátima Marinho (professora na Universidade do Porto), Marco Lucchesi (professor na Universidade do Rio de Janeiro), João Melo (poeta e jornalista angolano) e Corsino Fortes (presidente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos).
Deliberou por maioria . Na sua decisão teve em consideração “o alto nível da obra literária de João Ubaldo Ribeiro, especialmente densa das culturas portuguesa, africanas e dos habitantes originais do Brasil”, lê-se na acta.

O “opressor lusitano”
João Ubaldo Ribeiro, baiano, 67 anos, publica desde os 22. Nasceu na ilha de Itaparica, vive no Rio de janeiro. É neto e sobrinho de portugueses de Fafe. Foi apadrinhado por Jorge Amado na sua primeira obra - Setembro Não Faz Sentido e é membro da Academia de Letras do Brasil.
É considerado um homem de grande cultura; poliglota, estudou e formou-se nos Estados Unidos, Alemanha e França. É mestre em Ciências Políticas. Viveu um ano em Lisboa, em 1981, graças a uma bolsa concedida pela Fundação Gulbenkian.
Não há candidatos ao Prémio Camões, instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989, que consagra toda a obra de um autor que contribua para a projecção e reconhecimento da língua portuguesa. “O júri reúne-se e coloca na mesa nomes que são representativos, e as obras dessas pessoas são discutidas. Debatem, chegam a acordo”, explicou Espinheira Filho. São geralmente três, quatro nomes que começam a ser debatidos e desses tem que se escolher um. Faz parte do regulamento que o prémio não pode deixar de ser atribuído.
“Na verdade, a comissão neste caso decidiu que centraria as suas discussões em escritores brasileiros. Poderia ter sido diferente mas foi assim. Da próxima vez pode ser diferente. Como o júri tem poderes pala decidir na hora como serão os trabalhos, neste caso foi isso que se deu”, revelou o presidente do júri. “Não foi fácil a decisão”, continuou.
Ubaldo Ribeiro tem uma obra já vasta e alguns prémios importantes. Alguns dos seus livros foram sucessos internacionais: o presidente do júri destacou Viva o Povo
Brasileiro - “o livro principal dele”.
Hoje, o autor vive do que produz intelectualmente. É cronista semanal de vários jornais e está a escrever um novo romance. “E um escritor em plena actividade criativa e acredito que este prémio vai apanhá-lo num momento muito positivo”, declarou Ruy Espinheira Filho.
Quando o seu livro A Casa dos Budas Ditosos (sobre a luxúria e escrito no feminino) foi publicado em Portugal, houve uma pequena polémica. Duas cadeias de hipermercados (Continente e Jumbo/Pão de Açúcar) não o quiseram vender. Estávamos em 2000, e o livro acabou por vender na época mais de 13 mil exemplares em cerca de dois meses.
Numa entrevista que deu ao PÚBLICO nessa altura, Ubaldo Ribeiro aconselhava quem não conhecesse a sua obra que começasse por Viva o Povo Brasileiro - porque, dizia ele, tem “a ver com a colonização portuguesa, com o inter-relacionamento dos nossos povos e - parodiando os livros tradicionais de História do Brasil — narra ironicamente a luta contra o chamado opressor português: “Era assim que nós aprendíamos na escola do meu tempo : ‘0 opressor lusitano foi vencido...”
Ontem, quando a agência Lusa disse a José Saramago (Prémio Camões 1995) o nome do vencedor deste ano, o escritor português exclamou: “Fico muito contente e até tenho vontade de dizer “Viva o povo brasileiro!”

24 de jul. de 2008

A CIDADE E A SAUDADE

Pacífico Ribeiro Rememora a Cidade Amada *

Paulo César da Silva Oliveira**

RESUMO:

O poema Jequié, é um soneto de Pacífico Ribeiro, escritor que nasceu em Jequié, em 13 de outubro de 1918. Esse poema foi publicado originalmente na coletânea o Meu Canto de Amor a Jequié, editado em 1988. É um olhar comparativo entre o presente e o passado num passeio sentimental em meio à cidade da memória e a cidade simbólica na qual o poeta colhe em cada rua uma saudade. O poeta percorre a cidade mais pela memória que por sua extensão física, apesar de achá-la bela e virente, ele se sente entristecido quando envolvido pela bruma do passado. A cidade real, a Jequié cantada pelo poeta, está presente através do uso de nomes próprios (Jequiezinho, Rio de Contas), contudo, encontra-se principalmente nas impressões sentimentais do eu lírico, que revisita poeticamente por meio de metáforas e trazendo novos sentidos que determinam seu valor poético.

Palavras-chave: saudade e cidade

JEQUIÉ

Pacífico Ribeiro

Jequié, terra do sol, formoso ninho,

Que me afagou na infância e mocidade.

Do seu berço ainda sinto todo arminho,

Aquecendo a ternura que me invade.

Desce o Rio de Contas de mansinho.

Beijando a parte morna da cidade.

Revejo a igreja, a ponte, o Jequiezinho,

E colho em cada rua uma saudade.

Minha terra cresceu, bela e virente,

Surgiram novas ruas, nova gente,

Velhos amigos já não vejo mais!

A bruma do passado me entristece,

Envolvendo minh´alma numa prece,

E cobrindo o jazigo de meus pais.

A cidade e a saudade

Saudade. No dicionário de Houaiss esse termo está definido como “sentimento mais ou menos melancólico de incompletude”. Essa incompletude quase sempre, pode ser aumentada ou diminuída pela memória ou mesmo a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável. Se para um lexicólogo renomado já é difícil definir esse termo, ainda mais difícil ainda é traduzi-lo numa linguagem literária em forma de versos em um soneto. Pacífico Ribeiro poeta que tentou traduzir em imagem poética todo o amor que sentia por sua cidade natal, neste poema intitulado Jequié retoma um tema constante na literatura o saudosismo da terra natal. O poeta inicia o soneto chamando a cidade de formoso ninho, evidenciando o caráter maternal e protetor do local de nascimento.

Jequié, terra do sol, formoso ninho,

Que me afagou na infância e mocidade.

Do seu berço ainda sinto todo arminho,

Aquecendo a ternura que me invade.

Esse primeiro quarteto inteiro é formado por metáforas que chamam a atenção pelo sentido de abrigo e amparo trazidos ao momento presente pela memória do autor: além de ninho, já citado, estão termos como: afagou, berço, arminho, aquecendo e ternura. A palavra ninho nos traz a mente um lugar de proteção e abrigo; o arminho, talvez devido à sua aparência simpática e pelagem valiosa, tem estimulado a imaginação do Homem. No Japão é considerado um símbolo de boa sorte e na Europa medieval e renascentista era visto como símbolo de pureza[1]. A imagem poética lembra um lar acolhedor onde se encontra refúgio e tranqüilidade. A própria sonoridade dos versos 1/3 com rimas pobres: ninho e arminho podem nos remeter aos sufixos formadores de diminutivo na língua portuguesa e que são usados estilisticamente para evidenciar o caráter afetivo imaginado por ele.

Desce o Rio de Contas de mansinho,

Beijando a parte morna da cidade

Revejo a igreja, a ponte, o jequiezinho,

E colho em cada rua uma cidade.

A Jequié cantada nessa segunda estrofe, não existe enquanto espaço construído, e sim, enquanto memória. Esta cidade poderia estar no mesmo rol daquelas descritas por Ítalo Calvino em “As Cidades Invisíveis[2]” (CALVINO, 2003, p.6). Diomira por exemplo era desconhecida por Marco Pólo, mas ao avistar alguns símbolos nela existentes, o viajante veneziano fica com a impressão de já tê-la visto anteriormente; e a razão disso era reconhecer os símbolos desta em outras cidades nas quais havia passado.

Segundo Paulo Sérgio Rounet (ROUNET, 1997, p.65), muitas cidades são originadas diretamente da concepção do mundo dos seus idealizadores. Em Pacífico Ribeiro, esta visão fica repleta de saudades, pois esse lugar cantado é visto em sua relação com o passado “e colho em cada rua uma saudade”. Os lugares acima citados, por certo ainda estão lá, mas, ao percorrer tais espaços, o poeta não pode revê-los com os olhos do presente, pois é ao passado que retorna. Percebe-se ainda nesses versos que o espaço urbano descrito pelo poeta se compõe de objetos do cotidiano real: A igreja, a ponte e o jequiezinho, confirmando as teorias de LYNCH (1997) quando levanta a proposta de que o conteúdo visual de uma cidade se constitui por cinco tipos de elementos: vias, limites, bairros, pontos nodais e marcos, sendo estes últimos os objetos do real cotidiano. Unir-se a esses elementos não significava para o eu lírico um esconderijo, mas deles fazer-se elemento integrante, como preenchimento de seu vazio interior.

Minha terra cresceu, bela e virente,

Surgiram novas ruas, nova gente,

Velhos amigos já não vejo mais!

Do mesmo modo que Isidora era a cidade dos sonhos de Marco Pólo, Jequié é a cidade dos sonhos de Ribeiro. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; (...). Os desejos agora são recordações. (Calvino, 2003, p.12). Ao ver sua cidade crescer “bela e virente”, o poeta entende que o progresso da cidade é inevitável e os dois primeiros versos desse terceto possuem verbos no tempo pretérito. Pode se supor que o eu lírico estivesse ausente quando essas mudanças ocorreram. A nova gente que freqüenta essas ruas se contrapõe aos velhos amigos que não mais são vistos, afinal, os últimos, habitavam uma cidade que não mais existe, ou melhor, continua existindo na memória do poeta. É interessante notar a mudança do verbo no último verso do terceto: Vejo, o verbo está no presente, sendo a cidade declamada pelo poeta, um lugar imaginário, os limites do tempo e do espaço tornam-se necessariamente fluidos, presente e passado são retomados num flash tornando-os indistintos entre si, como preconiza Gaspar Simões: “O homem só é alguma coisa quando se imobiliza ou deixa imóvel fora dele o que num instante se foi” (SIMÕES, 1931, p.45-46). È principalmente esse instante que o poeta eterniza em versos.

A bruma do passado me entristece,

Envolvendo minh’alma numa prece

E cobrindo o jazigo de meus pais.

Nesse último terceto o passado comparado metaforicamente como algo misterioso e escuro: bruma. A saudade retoma com força os versos finais revelando todo o esforço do poeta ao reconstruir a cidade imaginaria em sua memória poética. Marco Pólo (CALVINO, p.10) ao relembrar a cidade de Zora, conta que a cidade se torna imagem extraordinária e direta para todo indivíduo que a visita. Em cada ponto do local a memória se torna completa, o acesso a ela é imediato. Desse modo, aquele que a freqüenta apenas uma vez tem em si tudo o que a cidade contém, tornando-a imutável. A cidade tornar-se-ia, então, o lugar ideal da permanência da informação memorial, ressaltada pela presença da palavra jazigo,local propício de lembranças pois lá estão os antepassados do poeta e por extensão dos habitantes de uma cidade. Em Zora apenas se tem a sensação de saber onde tudo está e da certeza da sua imutabilidade. “Zora tem a propriedade de permanecer na memória ponto por ponto(...) O seu segredo é o modo pelo qual o olhar percorre as figuras que se sucedem como uma partitura musical da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma nota.” Nos versos de Pacífico acima, nota-se a fragmentação do curso narrativo cronológico da vida. A imagem real é vista em pedaços que são captados pelos olhos e rapidamente codificados em palavras, formando um todo. Assim, aquela imagem que parecia cortada, se apresenta na íntegra, ainda que disforme.

Ao apresentar os elementos urbanos que constituem a cidade que ama e viveu, o poeta se revela como um homem saudoso e triste. Embora seu olhar fosse um olhar onisciente, que via a cidade com os olhos no passado, sua visão do real o mantinha intimamente conectado à realidade que o rodeava. Dela era ser integrante, alvo de todas as suas ações enquanto cidade. Era um transeunte, um passageiro, ou seja, um cidadão urbano.

REFERÊNCIAS:

CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Publifolha, 2003.

HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico houaiss. Disponível na Internet. Httpp:// www.houaiss.uol.com.br . Acessado em 14/07/2008.

LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

RIBEIRO, Pacífico. Meu Canto de amor a Jequié. Salvador: Editora Arpoador, 1988.

ROUANET, Sérgio Paulo. A cidade iluminista. In: SCHIAVO, Cléia e ZETTEL, Jaime (org). Memória, cidade e cultura. Rio de Janeiro: IPHAN, 1997.

SIMÕES, João Gaspar. O mistério da poesia. Coimbra: Imprensa da universidade,1931.



* Artigo apresentado à professora Valéria Lessa Mota como avaliação da disciplina Literatura Brasileira V, no II período letivo de 2007 em julho de 2008.

** Aluno do VI semestre do curso de Letras da Uesb, campus de Jequié. E-mail: paulo.cesar1075@hotmail.com Fone: (73) 3526 3296



[1] Alguns exemplos conhecidos de arminhos enquanto símbolos de pureza incluem um quadro de Leonardo da Vinci “moça com arminho” e um retrato de Isabel I, de Inglaterra, onde a rainha-virgem aparece representada com um arminho no colo.

[2] Todas as citações feitas neste artigo são da Edição 2003 da publifolha.