29 de mai. de 2010

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

7 de mar. de 2010

Poesia marginal dos anos 70 ganha antologia e dialoga com novos poetas

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
Os anos 70 ficaram marcados pela truculência da ditadura, mas também pelo chamado desbunde, versão mais debochada do movimento hippie. Essa dicotomia entre desencanto e celebração da vida ficou bem evidente nos versos dos poetas da época, ditos marginais: ao mesmo tempo em que resistiam à repressão com espírito utópico e ironia típicos da contracultura, buscavam a intensidade prosaica das experiências sensoriais - o popular sexo drogas e o que mais "pintar". O tom era coloquial, despretensioso, libertário.
  • Divulgação

    Antologia "Destino: Poesia" (esq.) resgata poesia marginal dos anos 70; os novos "Logocausto" (c) e "Esquimó" dialogam, mesmo que por contraste, com a poesia da contracultura

Ana Cristina César, Cacaso, Torquato Neto, Waly Salomão e Paulo Leminski, agora reunidos nessa pertinente e divertida antologia organizada pelo crítico Italo Moriconi, tinham esses traços em comum, cada qual à sua maneira.

Ana Cristina e Torquato pintavam seus poemas com cores um tanto mais escuras, reveladoras de um desespero íntimo, um desentendimento grave com a vida. Por mais que tentassem infiltrar certo humor em seus escritos - e, no caso de Torquato, a melodia que gerou algumas canções memoráveis, o que sobressaía era quase um pedido de socorro. Ambos aceleraram de encontro ao suicídio. Tornaram-se mitos românticos, na acepção ampla da palavra.

Cacaso e Leminski pendiam mais para o poema bem-humorado, feito de frases curtas, ritmo leve, ideias originais. O primeiro, conterrâneo e, em certo sentido, herdeiro de Drummond, buscava o riso inteligente, o comentário ácido, muitas vezes de cunho político. Já o curitibano Leminski, um dos mais cultuados até hoje dentre os cinco, tinha um estilo único, algo entre o beatnik e o concretismo, entre a confissão embriagada e o sóbrio hai kai.

Waly Salomão, por sua vez, era o tropicalista do grupo, o mais colorido, expansivo, performático. Seus poemas tinham aquele jeito de conversa meio louca, um pouco como no caso de Ana Cristina, que no entanto era mais experimental, "difícil".

"Destino: Poesia", com ótima introdução de Moriconi e pequenas biografias dos poetas, é um retrato fiel da poesia dos 70, cúmplice da música popular, diversa mas unida na resistência à violência dos militares e à sisudez dos "caretas". Vale por cada flash em technicolor.

Dois novos
Leandro Sarmatz e Fabrício Corsaletti são dois poetas nascidos nos 70 que de certa forma dialogam, mesmo que por contraste, com a poesia do desbunde e da contracultura. Dos dois, o gaúcho Sarmatz, com seu breve e valioso "Logocausto" (Editora da Casa), uma reunião de poemas que foi dilapidando ao longo dos anos, é o menos ligado à geração do mimeógrafo, como também ficaram conhecidos os contemporâneos de Torquato Neto e Ana Cristina César. Se é que se pode falar em filiação, ele está mais para o modernismo anterior, "estrangeiro", de Cummings, Celan e William Carlos Williams. Seus poemas, elaborados com rigor autocrítico, são revestidos de ironia sofisticada (no melhor dos sentidos), e permeados por cultas referências literárias. A condição judaica - como sugere o neologismo do título, é um tema presente em cada linha, implícita ou diretamente. Para encarar a história sofrida de seus antepassados, o autor, também dramaturgo, chega a inventar uma nova ciência dos sentimentos: a "Ecologia da Memória", ao mesmo tempo em que desconfia da religião e seu "messias fajuto". Com um pessimismo que não dispensa o humor e até a escatologia, declara que "toda graça está no achar-se em meio à perda" e que as palavras são "uma praga, um lamento surdo: um exílio".

Já Corsaletti talvez ficasse mais à vontade entre os poetas brasileiros dos 70. Tal como Leminski e Cacaso, pratica o verso curto, de ideias bem-humoradas e diretas, às vezes próximas de um slogan surreal ou existencialista, ou mesmo da piada, que surte efeito imediato. Os poemas de "Esquimó" (Companhia das Letras), claros, concisos, sugerem espaços livres das sombras, em meio a uma floresta de possibilidades. Nos melhores momentos atingem o nervo (mas com anestesia): "- meu único gesto sincero/ depende de garfo e faca". Também adepto das referências - no caso, mais "pop", o autor recorre a um certo minimalismo, com variações sutis e repetições eloquentes. E "comete" divertidos poemas de amor e desejo, como na declaração à atriz Eva Green, em "Plano", e no poema final, o melhor do livro, "Seu Nome", no qual o nome da amada, nunca dito, batiza todas as coisas.



"DESTINO - POESIA"
Autor: Diversos
Editora: José Olympio
Páginas: 160
Preço: R$ 28

"LOGOCAUSTO"
Autor: Leandro Sarmatz
Editora: Editora da Casa
Páginas: 36
Preço: R$ 12

"ESQUIMÓ"
Autor: Fabrício Corsaletti
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 80
Preço: R$ 31

4 de mar. de 2010

Quatro décadas de corrupção, pobreza e abusos no futebol brasileiro

Ano de Copa do Mundo é sempre garantia de bons lançamentos na área editorial. O primeiro tiro certeiro de 2010, indispensável para estudantes de jornalismo e interessados em jornalismo esportivo, é “11 Gols de Placa – Uma seleção de grandes reportagens sobre o nosso futebol”, organizado pelo jornalista Fernando Molica.

O livro reúne onze trabalhos de fôlego sobre o “lado B” do futebol brasileiro, ou seja, sobre os graves e perpétuos gols contra que vem marcando ao longo do tempo. Como escreve Molica, explicando a sua seleção, é “uma escalação que mistura corrupção, pobreza, desemprego, falsificação de documentos, abuso e exploração de menores”.

A primeira reportagem é o premiado texto de João Maximo, “Futebol brasileiro: o longo caminho da fome à fama”, publicado no “Jornal do Brasil”, em 1967, no qual o jornalista descreve os sérios problemas de saúde – de subnutrição a sífilis – que enfrentavam então os jogadores dos principais clubes brasileiros.

O livro traz ainda uma segunda série publicada no final da década de 60, “O Jogador é um escravo”, na qual Michel Laurence, José Maria de Aquino e Luciano Ornellas mostraram, em “O Estado de S.Paulo”, como os jogadores de futebol se submetiam ao desígnio de dirigentes esportivos, aceitando tratamentos médicos criminosos, assinando contratos em branco e não recebendo os seus direitos básicos.

"11 Gols de Placa" dá, então, um salto até a década de 90, e apresenta reportagens sobre assuntos que o leitor deve se recordar. Para citar apenas algumas, há a série de “O Globo”, assinada por Marco Penido e equipe, sobre corrupção e negociação de resultados na Federação de Futebol do Rio de Janeiro, e a descoberta, por Sergio Rangel e Juca Kfouri, da “Folha de S.Paulo”, das contas furadas da CBF e do contrato da entidade com a Nike.

Entrando no século XXI, a seleção de Molica mostra a persistência de velhos problemas. A série de Diogo Olivier Mello, publicada no “Zero Hora”, em 2001, revela as desigualdades sociais no mundo da bola, além dos graves problemas que jogadores enfrentam durante e ao final da carreira. O livro se encerra com a reportagem de Andre Rizek e Thais Oyama, publicada em “Veja”, em 2005, sobre a “máfia do apito” montada para fraudar resultados de partidas de futebol.

Todas as reportagens são acompanhadas de textos introdutórios, preparados especialmente pelos autores para o livro, nos quais revelam o “making of” do trabalho que realizaram e contam bastidores não incluídos nos textos.

“11 Gols de Placa” (378 págs., R$ 49,90) é o terceiro título de uma parceria entre a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a editora Record, que já rendeu também “10 Reportagens que Abalaram a Ditadura” e “50 Anos de Crime”.

2 de mar. de 2010

Se os Tubarões Fossem Homens

Bertold Brecht

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

***

Um Homem Pessimista

Um homem pessimista
É tolerante.
Ele sabe deixar a fina cortesia desmanchar-se na língua
Quando um homem não espanca uma mulher
E o sacrifício de uma mulher que prepara café para
seu amado
Com pernas brancas sob a camisa -
Isto o comove.
Os remorsos de um homem que
Vendeu o amigo
Abalam-no, a ele que conhece a frieza do mundo
E como é sábio
Falar alto e convencido
No meio da noite.

...

Esse Desemprego

Meus senhores, é mesmo um problema

Esse desemprego!

Com satisfação acolhemos

Toda oportunidade

De discutir a questão.

Quando queiram os senhores! A todo momento!

Pois o desemprego é para o povo

Um enfraquecimento.

Para nós é inexplicável

Tanto desemprego.

Algo realmente lamentável

Que só traz desassossego.

Mas não se deve na verdade

Dizer que é inexplicável

Pois pode ser fatal

Dificilmente nos pode trazer

A confiança das massas

Para nós imprescindível.

É preciso que nos deixem valer

Pois seria mais que temível

Permitir ao caos vencer

Num tempo tão pouco esclarecido!

Algo assim não se pode conceber

Com esse desemprego!

Ou qual a sua opinião?

Só nos pode convir

Esta opinião: o problema

Assim como veio, deve sumir.

Mas a questão é: nosso desemprego

Não será solucionado

Enquanto os senhores não

Ficarem desempregados!

10 de jun. de 2009



DEFENESTRAR


LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO




Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
-- Os hermeneutas estão chegando!
-- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam
a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
-- Alô...
-- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
-- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser um barulho que o corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico.
Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
-- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
-- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata. Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
-- Lês defenestrations. Devem ser proibidas.
-- Sim, monsieur le Ministre.
-- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
-- Sim, monsieur lê Mnistre.
-- Com prédios de três, quatro andares, ainda era possível. Até divertido. Mas, daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
-- É essa estranha vontade de jogar alguém ou algo pela janela, doutor...
-- Humm, O Impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar -- diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada. Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
-- Querida...
-- Mmmm?
-- Há uma coisa que preciso lhe dizer...
-- Fala, Amor
-- Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:
-- Estou pronta para experimentar tudo com você! TUDO!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e babulcia:
-- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
-- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela?
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.

9 de mar. de 2009

Entrevista com o Padre Antonio Vieira
Reinaldo Polito
Com frequência ouvimos comentários elogiosos à competência do Padre Antonio Vieira. Os críticos referem-se a ele como tendo sido o maior escritor e o maior orador da língua portuguesa. Há aqueles, entretanto, que embora reconheçam seus méritos o coloquem em pé de igualdade e até em posição inferior a um seu contemporâneo, o autor de "Nova floresta", Padre Manuel Bernardes. O filólogo Silveira Bueno, com quem tive o privilégio de conviver durante seus últimos anos de vida, ao se referir à excelência dos textos produzidos por Rui Barbosa, disse: ninguém escreveu melhor que Rui Barbosa, somente o Padre Vieira, que foi o professor dele.A obra de Vieira é vastíssima. Há em seus sermões respostas para praticamente todas as perguntas que pudéssemos fazer. Por isso, resolvi imaginar uma entrevista hipotética com o grande pregador, especialmente levantando questões sobre a arte de falar em público. Polito - Algumas pessoas julgam que o senhor tenha nascido no Brasil, porque fazem essa confusão? Quem foram seus pais?Vieira - Talvez pelo fato de eu ter vindo ainda menino para o Brasil. Nasci em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608 e vim para o Brasil quando ainda não havia completado 8 anos. Sou filho de Cristovão Vieira Ravasco e de D. Maria de Azevedo.P - Como nasceu sua vocação para o sacerdócio?V - Iniciei meus estudos no colégio da Companhia de Jesus, na Bahia, e encontrei ali campo fértil para despertar minha vocação. Na verdade, descobri de um momento para outro que esta seria a vida que desejava. Em 1623 ouvi uma pregação do Padre Manuel do Carmo, que falava sobre as penas infernais, e fiquei encantado. Naquele momento senti que seria sacerdote. P - Como foi o início de seus estudos para se tornar sacerdote?V - Entrei para a Companhia de Jesus aos 15 anos de idade. Não foi fácil porque meus pais foram muito resistentes a essa minha decisão. Tive de fugir para ingressar no Colégio dos Jesuítas, e pude professar ainda jovem, com 17 anos, no dia 6 de maio de 1625.P - Seu gosto pela oratória também começou cedo?V - Aos 18 anos atuei como professor de retórica em Olinda. Escolhi como tema das minhas aulas as obras de Sêneca e Ovídio. Confesso, entretanto, que não me sentia bem com essa atividade fechada em sala de aula, meu anseio era o de me envolver com a vida missionária. Ao contrário do meu contemporâneo Manuel Bernardes, que sempre foi mais contemplativo, eu desejava ação.P - Não vejo o Padre Manuel Bernardes como sendo um homem apenas contemplativo.V - Eu não disse que ele foi apenas contemplativo, mas sim que foi mais contemplativo. E estava fazendo essa observação apenas para tentar esclarecer a vida que escolhi para mim.P - Quando se tornou padre?V - Os jesuítas pediram que eu ficasse na Bahia para concluir os estudos de Filosofia e Teologia. Assim, pude ser ordenado padre em 1635. Sempre gostei do púlpito. Em 1640 proferi um dos meus sermões preferidos, Sermão contra os holandeses - Bom sucesso das armas de Portugal contra a Holanda. P - Não foi nesse sermão que o senhor confrontou e interpelou Deus?V - Absolutamente. Meu objetivo foi o de levantar o ânimo da nossa gente, usando argumentos legítimos para persuadir Deus a nos ajudar. Jamais poderia confrontar Deus sendo eu um de seus servos mais fieis.P - O senhor disse, entretanto, nesse sermão - "Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os Homens, mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito Divino se há de dirigir todo o sermão".V - Sim, disse. Foi apenas um recurso retórico para chamar a atenção daqueles que me ouviam. Se na verdade eu desejasse apenas que Deus me ouvisse faria sozinho uma prece silenciosa, não um sermão.P - Acho difícil entender.V - Entenderia melhor se você estivesse lá no ano de 1640, diante de uma batalha.P - O senhor foi acusado de misturar religião com política. Em algum momento suas atividades favoreceram os poderosos?V - Essa é uma invencionice daqueles que nunca se conformaram com a sinceridade das minhas pregações. No Sermão dos Escravos, que preguei no ano de 1653, em São Luis do Maranhão, para a 1ª Dominga da Quaresma, enfrentei os mais poderosos pleiteando que libertassem os índios do cativeiro, pois considerava pecado mortal escravizá-los. E respondendo diretamente à sua pergunta uso as palavras que disse nesse mesmo sermão: "Subir ao Púlpito para dar desgosto, não é de meu ânimo, e muito menos a pessoas a quem eu desejo todos os gostos, e todos os bens. Por outra parte, subir ao Púlpito e não dizer a verdade é contra o ofício, contra a obrigação, contra a consciência; principalmente em mim, que tenho dito tantas verdades, e com tanta liberdade, e a tão grandes ouvidos. Por esta causa resolvi trocar um serviço de Deus por outro: e ir-me doutrinar os índios por essas aldeias". Se disser o que eu disse com tanta coragem é ser político, então eu fui um político.P - Embora, de certa forma, a nossa conversa esteja ligada a arte de falar em público, gostaria de ser mais específico neste assunto. Lendo seus sermões será possível aprender a falar em público?V - Não produzi os sermões com essa finalidade. O objetivo das minhas pregações sempre foi o de levar às pessoas a palavra de Deus. Por outro lado, não posso ser hipócrita e ficar com falsa humildade dizendo que não. Os sermões que proferi, embora tenham sido respaldados na verdade e na sinceridade, foram elaborados no que pude encontrar de melhor na arte oratória. A leitura criteriosa e crítica poderá dar ao leitor um bom caminho para o aprendizado da comunicação em público.P - O senhor recomenda algum em especial?V - O mais apropriado para essa finalidade é o Sermão da Sexagésima, que preguei na Capela real em 1655. Nessa pregação mostrei aos padres como deveriam agir para planejar e proferir seus sermões. Foi na verdade uma aula de oratória. Trato ali de todos os aspectos relevantes sobre o orador, o tema e os ouvintes. A respeito do orador analiso suas cinco "circunstâncias": a Pessoa, o Estilo, a Ciência, a Matéria e a Voz.P - O senhor julga que esses princípios pregados há mais de 300 anos teriam aplicação prática nos dias de hoje?V - Tenho certeza que sim. Quer algo mais apropriado para os dias de hoje que o trecho desse sermão? "Sabem, Padres Pregadores, por que fazem pouco abalo os nossos sermões? Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Por que convertia o Batista tantos pecadores? Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos." Diga-me, será que existe matéria mais atual que essas palavras? Já pensou se os nossos políticos, governantes, educadores, pregadores, todos, enfim, seguissem esses mesmos conselhos?!

25 de out. de 2008


Nua e Crua
Raimundo Correia



Doire a Poesia a escura realidade

E a mim a encubra! Um visionário ardente

Quis vê-la nua um dia; e, ousadamente,

Do áureo manto despoja a divindade;



O estema da perpétua mocidade

Tira-lhe e as galas; e ei-la, de repente,

Inteiramente nua e inteiramente Crua,

como a Verdade! E era a Verdade!



Fita-a em seguida, e atônito recua...

— Ó Musa! exclama então, magoado e triste,

Traja de novo a louçainha tua!


Veste outra vez as roupas que despiste!

Que olhar se apraz em ver-te assim tão nua?

... À nudez da Verdade quem resiste?!

24 de out. de 2008

ESTRELA CADENTE

Traço de luz… lá vai! Lá vai! Morreu.
Do nosso amor me lembra a suavidade…
Da estrela não ficou nada no céu
Do nosso sonho em ti nem a saudade!

Pra onde iria a ’strela? Flor fugida
Ao ramalhete atado no infinito…
Que ilusão seguiria entontecida
A linda estrela de fulgir bendito?…


Aonde iria, aonde iria a flor?
(Talvez, quem sabe?… ai quem soubesse, amor!)
Se tu o vires minha bendita estrela
Alguma noite… Deves conhecê-lo!

Falo-te tanto nele!…Pois ao vê-lo
Dize-lhe assim: “Por que não pensas nela?”

Florbela Espanca - Trocando olhares - 29/07/1916

27 de set. de 2008






Os quatro fabulosos que nasceram na semana mais fértil do futebol

Simon Kuper

Em 22 de setembro de 1976, um grande jogador de futebol nasceu no Rio. "Você sabe de onde veio o nome Ronaldo?" seu pai perguntou ao escritor Frans Oosterwijk anos depois. "Do médico que fechou as trompas da mãe após o nascimento dele. Há, há. Doutor Ronaldo, era o nome dele."

Este nascimento deu início à semana mais fértil da história do futebol. Quatro dias depois de Ronaldo, o pequeno Michael Ballack nasceu em Görlitz, na República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), seguido por Francesco Totti, em Roma, em 27 de setembro, e o quarteto é completado quando Andriy Shevchenko nasceu na aldeia ucraniana de Dvirkivschyna, em 29 de setembro.

Provavelmente havia algo na água naquela estação. Em 1º de julho de 1976, Ruud van Nistelrooy e Patrick Kluivert nasceram na Holanda. Seja qual for o segredo, à medida que o quarteto completa 32 anos e se aproxima da linha de chegada, é uma chance de esboçar uma espécie de carreira do astro moderno do futebol.

O primeiro ponto a despontar é que a origem pouco importa. No futebol moderno, é irrelevante ter vindo de uma aldeia evacuada após o desastre de Chernobyl (Shevchenko), de uma família romana tão tradicional que sua mãe sempre passava o uniforme de futebol (Totti), ou de Dr Salvador-Allende-Strasse, 168, Karl-Marx-Stadt, Alemanha Oriental (Ballack).

Todos os quatro cresceram sonhando com a grandeza. Totti inicialmente queria ser frentista de posto de gasolina, Ronaldo queria ser cantor, Shevchenko lutava boxe e Ballack foi identificado pelo governo da Alemanha Oriental como um futuro patinador de velocidade. Apenas Ronaldo foi um adolescente prodígio: aos 17 anos, ele já estava sentado no banco de reservas da Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1994, segundo dizem tremendo de medo de ser chamado para entrar em campo. A primeira coisa que comprou com sua nova riqueza foi um aparelho ortodôntico. Seus dentes "de coelho" atormentaram sua juventude.

Os outros três chegaram depois. Nenhum esteve presente no Mundial Sub-20 de 1995. Nunca mais se teve notícia do destaque do torneio, o brasileiro Caio.

Ballack foi quem levou mais tempo para se tornar um astro. Aos 22 anos, ele ainda não jogava regularmente na Bundesliga alemã. Seu período mais longo no anonimato pode ser o motivo para ser o único no quarteto a não ter se casado com uma modelo ou artista. Em vez disso, ele conheceu uma garçonete bonita no Café Am Markt, em Kaiserslautern. Enquanto isso, Ronaldo alternava entre uma legião de loiras, conhecidas coletivamente como Ronaldinhas.

Esta é a primeira geração de jogadores de futebol globalizados. Apesar dos primeiros jogadores ex-soviéticos a se mudarem para o Ocidente terem fracassado, Shevchenko trocou o Dínamo de Kiev pelo Milan e se adaptou instantaneamente. Ele apenas se mudou de um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum não tinha nada, para um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum anda vestido em Armani. Ele se casou com uma modelo americana.

Todos os quatro deram nomes cosmopolitas para seus filhos. Shevchenko batizou um filho de Jordan, em homenagem a Michael Jordan; os meninos de Ballack são Louis, Emilio e Jordi; e o filho de Ronaldo se chama Ronald, porque o jogador e sua esposa na época gostavam de comer no McDonald's. Até mesmo Totti, o eterno romano, deu o nome de Chanel a sua filha.

Com vinte e tanto anos, estes jogadores viviam uma sucessão de grandes momentos - apesar de Ballack não ter conseguido grandes conquistas. O tempo no topo se move rápido demais para permitir muito tempo para saborear. Em Yokohama, em 2002, nem uma hora depois de Ronaldo ter marcado dois gols na conquista da Copa do Mundo, um jornalista brasileiro lhe disse: "Nós não estamos interessados no passado, só no futuro". Ronaldo desejava conquistar o ouro olímpico? E quanto à próxima Copa do Mundo?

"Agora eu não quero sentir qualquer pressão a respeito do futuro", Ronaldo respondeu ao seu modo sereno. "Eu só quero comemorar." Ele finalmente tinha aprendido uma habilidade essencial para a vida no topo: dizer não.

Todos esses jogadores desenvolveram uma forma de lidar com o estresse. Totti permaneceu para sempre no Roma, onde é amado mesmo quando não joga toda semana. Shevchenko acabou de voltar ao Milan, o melhor clube para paparicar jogadores. Ronaldo priorizou as Copas do Mundo, freqüentemente ficando meses fora do clube de futebol. E quando Ballack chegou ao topo, ele já era maduro o suficiente para lidar com a pressão.

Nós agora podemos traçar o pico de cada um deles. O de Ronaldo foi em 2002; o de Shevchenko foi em 2004, quando foi eleito jogador europeu do ano; o de Totti foi 2006, quando conquistou a Copa do Mundo; enquanto Ballack quase conquistou tudo neste ano. Isso mostra que quanto mais à frente se joga, mais dependente o jogador se torna da aceleração e mais cedo é o seu pico. Ballack, o único meio-campista real do quarteto, é aquele que mais dura.

A jornada termina prematuramente. Gradualmente, as lesões cobram seu preço cumulativo. Totti e Ballack estão tendo dificuldade para retomar a forma. Shevchenko espera marcar seu primeiro gol nesta temporada antes de seu aniversário. Ronaldo está se recuperando em uma praia do Rio de outra lesão terrível no joelho, mas ainda não consegue dizer adeus: "Eu sinto tamanha paixão pelo futebol que estou pronto a fazer qualquer sacrifício para voltar". Ele insinua jogar no Manchester City.

Mas ele foi recentemente fotografado pela revista "Veja" em um iate, barrigudo, fumando e bebendo cerveja. De uma forma ou de outra, é assim que termina.

Tradução: George El Khouri Andolfato

26 de set. de 2008

Manhã de sábado. Chovia fino, uma garoa fria e constante. Acordei cedo pensando na noite passada. "É desconcertante rever um grande amor", dizia a a canção que tocava no rádio. Ontem tive a oportunidade de reencontrar Joana. Telegraficamente trocamos olhares furtivos. Nada acrescentar. Pelo vidro turvo da janela as flores vermelhas da bonilha pareciam roxas. Defronte a arvore vazia de pardais num jardim silencioso e verde, vejo o vulto silencioso de Beth. Ainda que chovesse, lá estava lá varrendo folhas inexistentes com uma capa amarela. TOC. mania de limpeza incurável. Os olhos de Joana ainda ~mantém aquele brilho juvenil dos quinze anos. Sua pele de um branco gasto convidavam ao toque. Impossível. Cabelos pretos encaracolados e finos. Olhos negros e nariz aquilino. Sorriso de comercial de tv. Os seios já não possuem aquela antiga firmeza... Ah! ... não entendo porque estou escrevendo essas coisas...
Bem isso não é um diário... Sei lá ....

1 de ago. de 2008

4 ● Público ● Domingo 27 de Julho de 2008

PORTUGAL

Literatura Autor Brasileiro eleito por maioria para principal distinção literária lusófona

Ubaldo Ribeiro ganhou Prémio Camões e foi o último a saber

Distinguido escritor “com obra densa” das culturas portuguesa, africana e brasileira
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Isabel Coutinho
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O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro é o vencedor do Prémio Camões 2008. E é caso para se dizer que o autor foi o último a saber.
Ontem, quando se realizou a conferência de imprensa num hotel de Lisboa, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, ainda não tinha conseguido entrar em contacto com o escritor brasileiro para lhe comunicar a decisão do júri. Bem tentaram atrasar o anúncio do prémio, mas de nada valeu. Ainda não se sabe quando o prémio - o mais importante da literatura lusófona - será entregue, mas Pinto Ribeiro disse que, em princípio, o montante deste ano será semelhante ao de 2007–100 mil euros.
O júri era presidido por Ruy Espinheira Filho (escritor, jornalista e professor da Universidade Federal da Bahia), e incluía Maria Lúcia Lepecki (professora na Universidade de Lisboa, que por motivos de saúde participou por via telefónica), Maria de Fátima Marinho (professora na Universidade do Porto), Marco Lucchesi (professor na Universidade do Rio de Janeiro), João Melo (poeta e jornalista angolano) e Corsino Fortes (presidente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos).
Deliberou por maioria . Na sua decisão teve em consideração “o alto nível da obra literária de João Ubaldo Ribeiro, especialmente densa das culturas portuguesa, africanas e dos habitantes originais do Brasil”, lê-se na acta.

O “opressor lusitano”
João Ubaldo Ribeiro, baiano, 67 anos, publica desde os 22. Nasceu na ilha de Itaparica, vive no Rio de janeiro. É neto e sobrinho de portugueses de Fafe. Foi apadrinhado por Jorge Amado na sua primeira obra - Setembro Não Faz Sentido e é membro da Academia de Letras do Brasil.
É considerado um homem de grande cultura; poliglota, estudou e formou-se nos Estados Unidos, Alemanha e França. É mestre em Ciências Políticas. Viveu um ano em Lisboa, em 1981, graças a uma bolsa concedida pela Fundação Gulbenkian.
Não há candidatos ao Prémio Camões, instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989, que consagra toda a obra de um autor que contribua para a projecção e reconhecimento da língua portuguesa. “O júri reúne-se e coloca na mesa nomes que são representativos, e as obras dessas pessoas são discutidas. Debatem, chegam a acordo”, explicou Espinheira Filho. São geralmente três, quatro nomes que começam a ser debatidos e desses tem que se escolher um. Faz parte do regulamento que o prémio não pode deixar de ser atribuído.
“Na verdade, a comissão neste caso decidiu que centraria as suas discussões em escritores brasileiros. Poderia ter sido diferente mas foi assim. Da próxima vez pode ser diferente. Como o júri tem poderes pala decidir na hora como serão os trabalhos, neste caso foi isso que se deu”, revelou o presidente do júri. “Não foi fácil a decisão”, continuou.
Ubaldo Ribeiro tem uma obra já vasta e alguns prémios importantes. Alguns dos seus livros foram sucessos internacionais: o presidente do júri destacou Viva o Povo
Brasileiro - “o livro principal dele”.
Hoje, o autor vive do que produz intelectualmente. É cronista semanal de vários jornais e está a escrever um novo romance. “E um escritor em plena actividade criativa e acredito que este prémio vai apanhá-lo num momento muito positivo”, declarou Ruy Espinheira Filho.
Quando o seu livro A Casa dos Budas Ditosos (sobre a luxúria e escrito no feminino) foi publicado em Portugal, houve uma pequena polémica. Duas cadeias de hipermercados (Continente e Jumbo/Pão de Açúcar) não o quiseram vender. Estávamos em 2000, e o livro acabou por vender na época mais de 13 mil exemplares em cerca de dois meses.
Numa entrevista que deu ao PÚBLICO nessa altura, Ubaldo Ribeiro aconselhava quem não conhecesse a sua obra que começasse por Viva o Povo Brasileiro - porque, dizia ele, tem “a ver com a colonização portuguesa, com o inter-relacionamento dos nossos povos e - parodiando os livros tradicionais de História do Brasil — narra ironicamente a luta contra o chamado opressor português: “Era assim que nós aprendíamos na escola do meu tempo : ‘0 opressor lusitano foi vencido...”
Ontem, quando a agência Lusa disse a José Saramago (Prémio Camões 1995) o nome do vencedor deste ano, o escritor português exclamou: “Fico muito contente e até tenho vontade de dizer “Viva o povo brasileiro!”

24 de jul. de 2008

A CIDADE E A SAUDADE

Pacífico Ribeiro Rememora a Cidade Amada *

Paulo César da Silva Oliveira**

RESUMO:

O poema Jequié, é um soneto de Pacífico Ribeiro, escritor que nasceu em Jequié, em 13 de outubro de 1918. Esse poema foi publicado originalmente na coletânea o Meu Canto de Amor a Jequié, editado em 1988. É um olhar comparativo entre o presente e o passado num passeio sentimental em meio à cidade da memória e a cidade simbólica na qual o poeta colhe em cada rua uma saudade. O poeta percorre a cidade mais pela memória que por sua extensão física, apesar de achá-la bela e virente, ele se sente entristecido quando envolvido pela bruma do passado. A cidade real, a Jequié cantada pelo poeta, está presente através do uso de nomes próprios (Jequiezinho, Rio de Contas), contudo, encontra-se principalmente nas impressões sentimentais do eu lírico, que revisita poeticamente por meio de metáforas e trazendo novos sentidos que determinam seu valor poético.

Palavras-chave: saudade e cidade

JEQUIÉ

Pacífico Ribeiro

Jequié, terra do sol, formoso ninho,

Que me afagou na infância e mocidade.

Do seu berço ainda sinto todo arminho,

Aquecendo a ternura que me invade.

Desce o Rio de Contas de mansinho.

Beijando a parte morna da cidade.

Revejo a igreja, a ponte, o Jequiezinho,

E colho em cada rua uma saudade.

Minha terra cresceu, bela e virente,

Surgiram novas ruas, nova gente,

Velhos amigos já não vejo mais!

A bruma do passado me entristece,

Envolvendo minh´alma numa prece,

E cobrindo o jazigo de meus pais.

A cidade e a saudade

Saudade. No dicionário de Houaiss esse termo está definido como “sentimento mais ou menos melancólico de incompletude”. Essa incompletude quase sempre, pode ser aumentada ou diminuída pela memória ou mesmo a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável. Se para um lexicólogo renomado já é difícil definir esse termo, ainda mais difícil ainda é traduzi-lo numa linguagem literária em forma de versos em um soneto. Pacífico Ribeiro poeta que tentou traduzir em imagem poética todo o amor que sentia por sua cidade natal, neste poema intitulado Jequié retoma um tema constante na literatura o saudosismo da terra natal. O poeta inicia o soneto chamando a cidade de formoso ninho, evidenciando o caráter maternal e protetor do local de nascimento.

Jequié, terra do sol, formoso ninho,

Que me afagou na infância e mocidade.

Do seu berço ainda sinto todo arminho,

Aquecendo a ternura que me invade.

Esse primeiro quarteto inteiro é formado por metáforas que chamam a atenção pelo sentido de abrigo e amparo trazidos ao momento presente pela memória do autor: além de ninho, já citado, estão termos como: afagou, berço, arminho, aquecendo e ternura. A palavra ninho nos traz a mente um lugar de proteção e abrigo; o arminho, talvez devido à sua aparência simpática e pelagem valiosa, tem estimulado a imaginação do Homem. No Japão é considerado um símbolo de boa sorte e na Europa medieval e renascentista era visto como símbolo de pureza[1]. A imagem poética lembra um lar acolhedor onde se encontra refúgio e tranqüilidade. A própria sonoridade dos versos 1/3 com rimas pobres: ninho e arminho podem nos remeter aos sufixos formadores de diminutivo na língua portuguesa e que são usados estilisticamente para evidenciar o caráter afetivo imaginado por ele.

Desce o Rio de Contas de mansinho,

Beijando a parte morna da cidade

Revejo a igreja, a ponte, o jequiezinho,

E colho em cada rua uma cidade.

A Jequié cantada nessa segunda estrofe, não existe enquanto espaço construído, e sim, enquanto memória. Esta cidade poderia estar no mesmo rol daquelas descritas por Ítalo Calvino em “As Cidades Invisíveis[2]” (CALVINO, 2003, p.6). Diomira por exemplo era desconhecida por Marco Pólo, mas ao avistar alguns símbolos nela existentes, o viajante veneziano fica com a impressão de já tê-la visto anteriormente; e a razão disso era reconhecer os símbolos desta em outras cidades nas quais havia passado.

Segundo Paulo Sérgio Rounet (ROUNET, 1997, p.65), muitas cidades são originadas diretamente da concepção do mundo dos seus idealizadores. Em Pacífico Ribeiro, esta visão fica repleta de saudades, pois esse lugar cantado é visto em sua relação com o passado “e colho em cada rua uma saudade”. Os lugares acima citados, por certo ainda estão lá, mas, ao percorrer tais espaços, o poeta não pode revê-los com os olhos do presente, pois é ao passado que retorna. Percebe-se ainda nesses versos que o espaço urbano descrito pelo poeta se compõe de objetos do cotidiano real: A igreja, a ponte e o jequiezinho, confirmando as teorias de LYNCH (1997) quando levanta a proposta de que o conteúdo visual de uma cidade se constitui por cinco tipos de elementos: vias, limites, bairros, pontos nodais e marcos, sendo estes últimos os objetos do real cotidiano. Unir-se a esses elementos não significava para o eu lírico um esconderijo, mas deles fazer-se elemento integrante, como preenchimento de seu vazio interior.

Minha terra cresceu, bela e virente,

Surgiram novas ruas, nova gente,

Velhos amigos já não vejo mais!

Do mesmo modo que Isidora era a cidade dos sonhos de Marco Pólo, Jequié é a cidade dos sonhos de Ribeiro. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; (...). Os desejos agora são recordações. (Calvino, 2003, p.12). Ao ver sua cidade crescer “bela e virente”, o poeta entende que o progresso da cidade é inevitável e os dois primeiros versos desse terceto possuem verbos no tempo pretérito. Pode se supor que o eu lírico estivesse ausente quando essas mudanças ocorreram. A nova gente que freqüenta essas ruas se contrapõe aos velhos amigos que não mais são vistos, afinal, os últimos, habitavam uma cidade que não mais existe, ou melhor, continua existindo na memória do poeta. É interessante notar a mudança do verbo no último verso do terceto: Vejo, o verbo está no presente, sendo a cidade declamada pelo poeta, um lugar imaginário, os limites do tempo e do espaço tornam-se necessariamente fluidos, presente e passado são retomados num flash tornando-os indistintos entre si, como preconiza Gaspar Simões: “O homem só é alguma coisa quando se imobiliza ou deixa imóvel fora dele o que num instante se foi” (SIMÕES, 1931, p.45-46). È principalmente esse instante que o poeta eterniza em versos.

A bruma do passado me entristece,

Envolvendo minh’alma numa prece

E cobrindo o jazigo de meus pais.

Nesse último terceto o passado comparado metaforicamente como algo misterioso e escuro: bruma. A saudade retoma com força os versos finais revelando todo o esforço do poeta ao reconstruir a cidade imaginaria em sua memória poética. Marco Pólo (CALVINO, p.10) ao relembrar a cidade de Zora, conta que a cidade se torna imagem extraordinária e direta para todo indivíduo que a visita. Em cada ponto do local a memória se torna completa, o acesso a ela é imediato. Desse modo, aquele que a freqüenta apenas uma vez tem em si tudo o que a cidade contém, tornando-a imutável. A cidade tornar-se-ia, então, o lugar ideal da permanência da informação memorial, ressaltada pela presença da palavra jazigo,local propício de lembranças pois lá estão os antepassados do poeta e por extensão dos habitantes de uma cidade. Em Zora apenas se tem a sensação de saber onde tudo está e da certeza da sua imutabilidade. “Zora tem a propriedade de permanecer na memória ponto por ponto(...) O seu segredo é o modo pelo qual o olhar percorre as figuras que se sucedem como uma partitura musical da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma nota.” Nos versos de Pacífico acima, nota-se a fragmentação do curso narrativo cronológico da vida. A imagem real é vista em pedaços que são captados pelos olhos e rapidamente codificados em palavras, formando um todo. Assim, aquela imagem que parecia cortada, se apresenta na íntegra, ainda que disforme.

Ao apresentar os elementos urbanos que constituem a cidade que ama e viveu, o poeta se revela como um homem saudoso e triste. Embora seu olhar fosse um olhar onisciente, que via a cidade com os olhos no passado, sua visão do real o mantinha intimamente conectado à realidade que o rodeava. Dela era ser integrante, alvo de todas as suas ações enquanto cidade. Era um transeunte, um passageiro, ou seja, um cidadão urbano.

REFERÊNCIAS:

CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Publifolha, 2003.

HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico houaiss. Disponível na Internet. Httpp:// www.houaiss.uol.com.br . Acessado em 14/07/2008.

LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

RIBEIRO, Pacífico. Meu Canto de amor a Jequié. Salvador: Editora Arpoador, 1988.

ROUANET, Sérgio Paulo. A cidade iluminista. In: SCHIAVO, Cléia e ZETTEL, Jaime (org). Memória, cidade e cultura. Rio de Janeiro: IPHAN, 1997.

SIMÕES, João Gaspar. O mistério da poesia. Coimbra: Imprensa da universidade,1931.



* Artigo apresentado à professora Valéria Lessa Mota como avaliação da disciplina Literatura Brasileira V, no II período letivo de 2007 em julho de 2008.

** Aluno do VI semestre do curso de Letras da Uesb, campus de Jequié. E-mail: paulo.cesar1075@hotmail.com Fone: (73) 3526 3296



[1] Alguns exemplos conhecidos de arminhos enquanto símbolos de pureza incluem um quadro de Leonardo da Vinci “moça com arminho” e um retrato de Isabel I, de Inglaterra, onde a rainha-virgem aparece representada com um arminho no colo.

[2] Todas as citações feitas neste artigo são da Edição 2003 da publifolha.

11 de jul. de 2008

Por onde havia andado não sei. Mas o rosto esquálido, a pele enrugada e um olhar de medo e desconfiança causavam tristeza. as palavras desconexas e os cabelos brancos davam mesmo a impressão de demência. Aquele velho abandonado num ponto de ônibus, realmente causou em mim uma sensação estranha.
Aquela sensação me perseguia, mesmo quando entrei no trabalho. mecanicamente exerci minhas funções mas seu olhar de fogo era como um vigia atento. De repente sou interrompido em minhas cogitações pela voz veludosa de Manuela. Voz firme e sensual como uma canção de jazz.
- Não conseguia entender esse e-mail enviado pela loja Centrix.
- Pede para enviar uma segunda via do pedido pois a original foi extraviada.
- Qual o código que devo digitar o do produto ou da loja? - pergunta-me -
Respondo qualquer coisa querendo ficar sozinho outra vez, mas ela insiste em contar sobre a nova secretaria da diretoria. O perfume que exala do seu corpo é doce tão aveludado quanto a voz. Tento olhar nos olhos dela, mas não consigo sustentar o olhar. A menina perfumada tem um olhar penetrante e misteriosa. A associação é inevitável: "Olhos de ressaca oblíquos e dissimulados".
Um vestido rosa bem claro com alças leves conseguem manter seus belos seios hirtos e firmes imagináveis, mas não visíveis próximo ao meu corpo. Não tenho como me manter atento ao que ela diz, minha imaginação vaga entre a visão do velho abandonado na praça e essa beleza baiana aqui tão próximo.
- Você sabe que ela é formada em administração? pois é, numa dessas faculdades EAD! E o pior usa sempre aquele português pedante dos gramáticos!
E continua descrevendo com todos os detalhes possíveis os defeitos da nova funcionária.
Sua antipatia por certo devia ser causada pela beleza da outra. Não precisava. Sua pele morena, apenas realçava mais a beleza impudica...

6 de jul. de 2008

INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredoQue raras deusas têm escutado -Aquele amor cheio de crença e medoQue é verdadeiro só se é segredado?...Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.Não foi um outro, porque não sabia.Mas quem roçou da testa teu cabeloE te disse ao ouvido o que sentia?Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?Foi só qualquer ciúme meu de tiQue o supôs dito, porque o não direi,Que o supôs feito, porque o só fingiEm sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,A teu ouvido vagamente atento,Te falou desse amor em mim presenteMas que não passa do meu pensamentoQue anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,A teus ouvidos de eu sonhar-te disseA frase eterna, imerecida e louca -A que as deusas esperam da lediceCom que o Olimpo se apouca.
Fernando Pessoa

ABDICAÇÃO
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braçosE chama-me teu filho... eu sou um reique voluntariamente abandoneiO meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,Em mão viris e calmas entreguei;E meu cetro e coroa - eu os deixeiNa antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,Minhas esporas de um tinir tão fútil,Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,E regressei à noite antiga e calmaComo a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa, 1913

18 de jun. de 2008


"Tudo que é sólido desmancha-se no ar"



Faz frio na cidade sol. O vento sopra incessante sobre as folhas de um verde vivo no quintal. O vidro da janela reflete a tênue luz do dia que se finda pausadamente. A tristeza que invade o meu peito me oprime. Sei que devo chorar mas não consigo. O tempo passa lentamente. Os últimos pardais apressados se rejubilam entre folhas e formigas no chão. Sinto-me um fracasso! Sinto cansado. Sei lá! Minha vida entrou no turbilhão sem fim. Incendiado por esse sentimento de incapacidade, de impossibilidade de mudança! Se ao menos pudesse antever uma sáida já seria o suficiente para entrar na luta.
Lembro-me das tardes solitárias da infância. Brincava sozinho com meus brinquedos. Minha mãe sempre ocupada nos afazeres diários. Meu velho pai na lida para manter casa e familia. Recordo-me do silêncio em cada canto da casa. Sabia de cor o canto dos passarinho de tanto ouvi-los. O estridente canto da Garrincha. O sussurro macio das Lavandeiras, o repicar contínuo dos onipresentes pardais, o triste canto dos canários.
Sentado em frente a porteira do sítio onde morávamos mirava o horizonte sonhando em como seria morar na cidade. Correr pelas ruas, brincar com outras crianças. Subia o morro com agilidade e destreza. Sabia o nome das plantas e ervas... Eu era feliz e sabia! Só não entendia que o tempo é como um automóvel veloz, sem marcha ré. E por que não dizer... sem freio.
O telefone toca insistente. Para que atender? Nada pode mudar meu estado de espírito hoje. Nenhuma notícia boa. Nenhuma voz amiga. Ah! Quem me dera o tempo da esperança...
Vejo sobre a mesinha de cabeceira um livro que terminei de ler no domingo a noite: Breve romance de um sonho, um bom livro bem escrito, com ótimo enredo.Tudo vai bem na vida do dr. Fridolin e de sua mulher, Albertine. Ambos são jovens, belos, prósperos e têm uma filhinha adorável. Pode-se dizer que, na Viena dos anos 1920, eles formam uma família burguesa exemplar. Até que, numa noite, depois de um baile de máscaras e vários goles de champanhe, Albertine decide confessar ao marido uma antiga fantasia erótica. Perturbado pela história secreta de sua mulher, o dr. Fridolin sai no meio da noite para atender a um paciente em estado grave. A partir desse momento, tudo o que parecia dar sustentação ao mundo das personagens começa a entrar numa espécie de vertigem. Rapidamente o dr. Fridolin se vê enredado numa estranha aventura sexual, em que o desejo e o perigo de morte se auto-alimentam. Ao final da narrativa, o leitor fica com a impressão de que a volta à "realidade de todos os dias" não será mais possível - não para as personagens que a vivenciaram.
Eu também conheço minhas limitações e na luta constante do dia-a-dia quase sempre esqueço daquela recomendação básica de schopenhauer:“Viver e sofrer”.


Mas, apesar de todo seu profundo pessimismo, a filosofia de Schopenhauer aponta algumas vias para a suspensão da dor. Num primeiro momento, o caminho para a supressão da dor encontra-se na contemplação artística. A contemplação desinteressada das idéias seria um ato de intuição artística e permitiria a contemplação da vontade em si mesma, o que, por sua vez, conduziria ao domínio da própria vontade. Na arte, a relação entre a vontade e a representação inverte-se, a inteligência passa a uma posição superior e assiste à história de sua própria vontade; em outros termos, a inteligência deixa de ser atriz para ser espectadora. A atividade artística revelaria as idéias eternas através de diversos graus, passando sucessivamente pela arquitetura, escultura, pintura, poesia lírica, poesia trágica, e, finalmente, pela música. Em Schopenhauer, pela primeira vez na história da filosofia, a música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. Liberta de toda referência específica aos diversos objetos da vontade, a música poderia exprimir a Vontade em sua essência geral e indiferenciada, constituindo um meio capaz de propor a libertação do homem, em face dos diferentes aspectos assumidos pela Vontade.
Chega de filosofia, vou tomar minha dose noturna de caféina enquanto ouço Enya tristemente cansado...

4 de mai. de 2008


Desperte o interrese do seus alunos em poesia
Professores relatam como usam materiais de apoio da Olimpíada de Língua Portuguesa para despertar o interesse de seus estudantes pela poesia
A aplicação em sala de aula do material de apoio, que será distribuído às escolas públicas de todo o país, para despertar o interesse dos estudantes pela poesia, pode esbarrar no desequilíbrio de repertório nas salas de aula. A apreciação de poemas escritos pode ser vista como impenetrável a quem, por exemplo, teve alfabetização capenga. Professores que sentem tal dificuldade na pele aprendem na sala de aula a contornar o problema de forma muitas vezes criativa. Chegam, por exemplo, a aprimorar as orientações contidas nos materiais de apoio do projeto que inspirou a Olimpíada de Língua Portuguesa.
Foi com a ajuda de cantadores nordestinos que as professoras Joana D'Arc Pereira da Silva, de Crato (CE), e Maria Josélia Pereira de Araújo, de Pesqueira (PE), enriqueceram o conteúdo de orientação ao professor do concurso de redação Escrevendo o Futuro, realizado pela Fundação Itaú Social desde 2002 e que agora ganha escala ao inspirar a iniciativa do MEC, a primeira Olimpíada de Língua Portuguesa.
Este ano, o projeto das duas não só integra a primeira maratona do gênero no país como recebe a chancela do Ministério da Educação.
Em 2002, Josélia tomou contato pela primeira vez com o projeto do Itaú Social. Ela lecionava para alunos do 6º ano (antiga 5ª série), além das classes do 4º ano, na Escola Intermediária Maria Aliete de Freitas Macedo, em Pesqueira. A missão de ensinar o gênero poesia foi dura, já que a turma sofria com falha anterior: problemas graves de alfabetização.
Foi aí que ela teve a idéia de tornar a poesia mais próxima da realidade daqueles meninos por meio do canto entoado na região. Chamou um poeta local para explicar as várias estruturas possíveis de rimas e demonstrar que o gênero não era tão difícil assim de ser trabalhado.
- Antes eu tinha dificuldade de estimular a produção deles. Com o projeto, a evolução de todos foi visível - explica.
Três anos depois, foi a vez de Joana D'Arc, hoje com 27 anos de magistério, ter iniciativa similar e chamar artistas da cidade para sua sala de aula. A atividade foi tão bem absorvida pelos alunos que levou à classificação (em segundo lugar no país) da aluna Camila Felix da Silva, aluna da escola de Ensino Fundamental Estado da Paraíba, na qual a professora leciona.
- Além de facilitar o ensino, chamar os artistas locais para a sala de aula é uma forma de dar credibilidade a eles - explica.
Fora da realidadeAssim como Josélia, outros professores também sentiram os percalços da alfabetização falha. No município de Franco da Rocha (SP), o professor Luiz Cássio Bordim, conhecido por Gijio, descobriu logo nas primeiras aulas com o material de apoio do Escrevendo o Futuro que seus alunos da E. E. Zilton Bicudo Professor não tinham consciência do conceito de poesia.
- Estamos aqui em um bairro carente, cheio de necessidades e, apesar de o tema ser "O lugar onde vivo", os alunos não conseguiam transpor isso para o papel. As poesias criadas nesse primeiro momento não refletiam a realidade deles - conta.
Com o apoio do professor e depois de muito treino escrito, os estudantes entenderam que uma poesia pode retratar, sim, as adversidades do cotidiano, e não só amizade, amor e beleza, como acreditava a maioria, recorda o professor.
Para estimular a produção, Gijio fez questão de usar poemas produzidos na escola para exemplificar pontos positivos da criação, como coerência, encadeamento adequado de rimas e criatividade.
- No começo, eles ficavam assustados com os poemas consagrados. Aí tive a idéia de usar o material produzido por eles próprios - conta.
O empenho do professor garantiu a classificação da aluna Yasmim Conceição Alves, em 2006, no Escrevendo o Futuro. A poesia da aluna, que ainda estuda na Zilton Bicudo, foi a campeã no Estado de São Paulo e ficou entre as sete melhores no país.
Professor no banco da escola O material do concurso estimulou muitos professores a refletirem sobre o seu conteúdo programático de aulas. Nas oficinas de formação dos docentes, muitos perceberam que deixavam a desejar e poderiam aprofundar-se no tema poesia.
- Com o material nas mãos, percebi que estava ensinando da maneira errada. Também percebi que minha bagagem era limitada. O projeto abriu novas possibilidades de ensino - conta a professora Maria Josélia, de Pesqueira.
- Antes do Escrevendo o Futuro, acho que nem eu mesmo gostava de poesia, quanto mais trabalhar com ela em sala de aula - conta Gijio, de Franco da Rocha.
Hoje, o professor planeja, para o futuro, conseguir patrocínio para reunir em livros, todo ano, as poesias produzidas pelos alunos. O objetivo é ter um registro que poderá demonstrar a evolução do bairro a cada livro.
Já Joana D'Arc decidiu expandir a experiência e, ao lado de outra professora de Crato e com o apoio da secretaria Estadual de Educação do Ceará, trabalha a formação de 150 professores da rede.

30 de abr. de 2008


Mas afinal o que é solidão? No dicionário está definido como está só ou o estado de daquele que se sente só. A solidão é um estado interno, é principalmente certo sentimento de que algo ou alguém está faltando. Uma sensação de separatividade e desconexão com algo ainda inconsciente, sendo que numa visão espiritual seja a separação de Deus.
Atualmente, muitas pessoas optam por moraremm só e que apresentam um a vida bastante independente. Não podemos dizer que são pessoas solitárias, desde que elas se sintam em paz consigo mesmo. Entretanto, o que se mostra é que o sentimento de solidão pode estar presente em qualquer lugar ou situação. A pessoa pode sentir solidão durante uma festa com os amigos, no trabalho e até mesmo dentro de casa com a própria família. Para mim a pior solidão é aquele que sinto entre gente conhecido, é o não poder me enturmar, a solidão que a timidez traz para dentro de mim.
Cada ser humano vem sozinho ao mundo, atravessa pela vida como uma pessoa separada e morre finalmente sozinho. As fases de passagem pela vida física e para além dela trazem muitas experiências, onde tudo é passageiro e impermanente. As situações, os encontros e os fatos da vida surgem, permanecem por algum tempo e se vão.
Portanto, procuro refletir quando estou me sentido solidão. Com o que ainda está resistindo no momento atual? Existe algo que precis partir e eu ainda não percebi ou não aceitei essa possibilidade?
A idéia da separação e do estar só é apenas uma ilusão, pois nada se vai totalmente e nada está separado. Ficará sempre a lembrança no qual contém toda a experiência e vivência ocorrida o que é muito rico.
Perceber quandolestá se sentindo só é muito importante para o meu crescimento. Utilizar-me desse sentimento como uma alavanca para assumir plenamente a minha vida, para agir a partir disso, fortalecer a minha base e seguir em frente, manifestando a minhaa própria força dentro dos meus objetivos.
objetivo: Tenha a sua própria companhia, dê atenção, escute, e acolha aquilo que você é e manifesta. Seja o seu melhor amigo. A partir de então, você perceberá que a solidão deixará de existir naturalmente.

7 de abr. de 2008


Nostalgia. Sempre acompanhada pela solidão. Amiga da noite e da lua impassível. Por que fugir de si mesma sabedora de que sempre se encontrará num circulo sem fim. Falsas amizades. Esperanças falhas. E a certeza sobre todas as horas. Não há ninguém. Namorados muitos, mas todos em busca do mesmo. Prazer e dor. Dicotomia indisfarçável do nada ao nada.
Sentada agora neste café noturno numa cidade grande. Realizada? não. Mas o que deseja na verdade? qual o seu obejtivo de vida? Tudo o que quer é uma pessoa amiga paa conversar! Amiga! alguma vez já teve uma amizade verdadeira? Dificil resposta. Tantas vezes foi traída... outras traidora e a sufocante angústia de que sempre caminhou em duas direções opostas. Quem queria ser? quem de fato era. A essência da vida era a inquestionável solidão. Nunca conseguiu se livrar dessa certeza mesmo em meio a muita gente.
Escolheu seus proprios caminhos e os seguiu. Escolheu sua carreira e lutou para galgar espaços numa área em que ser mulher era um obstáculo. Contudo, não era de desistir, nunca se dobraria diante de qualquer dificuldade. Lutar sempre, vencer ás vezes. Mas a inquestionável pergunta: para que? O que fazer com a liberdade de escolha? Eram tantas as possibilidades que a independência financeira havia lhe proporcionado... No entanto, entre os muitos caminhos por onde se arriscou e se atirou de corpo inteiro, acabou enfim arcando com os ônus da indesejável solidão. Hábitos regulares ou irregulares. Fuga e compensação. Disciplinada ou não. Tanto faz se a cada esquina continua a perene surpresa: não há nada nem ninguém para encontrar. Faz um gesto autômato para pedir a conta. Sai apressadamente acompanhada pela própria sombra ouvindo a orquestra ritmada dos sapatos sobre a calçada insólita. Sabe o que há espera... Um colchão macio e confortavelmente vazio...