
Raimundo Correia
Doire a Poesia a escura realidade
O estema da perpétua mocidade
Fita-a em seguida, e atônito recua...
Veste outra vez as roupas que despiste!
esse meu blog é um lugar especial no qual pretendo expressar minhas memórias, sonhos e reflexões, espero que todos gostem porque eu amei!

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A CIDADE E A SAUDADE
Pacífico Ribeiro Rememora a Cidade Amada *
Paulo César da Silva Oliveira**
RESUMO:
O poema Jequié, é um soneto de Pacífico Ribeiro, escritor que nasceu em Jequié, em 13 de outubro de 1918. Esse poema foi publicado originalmente na coletânea o Meu Canto de Amor a Jequié, editado em 1988. É um olhar comparativo entre o presente e o passado num passeio sentimental em meio à cidade da memória e a cidade simbólica na qual o poeta colhe em cada rua uma saudade. O poeta percorre a cidade mais pela memória que por sua extensão física, apesar de achá-la bela e virente, ele se sente entristecido quando envolvido pela bruma do passado. A cidade real, a Jequié cantada pelo poeta, está presente através do uso de nomes próprios (Jequiezinho, Rio de Contas), contudo, encontra-se principalmente nas impressões sentimentais do eu lírico, que revisita poeticamente por meio de metáforas e trazendo novos sentidos que determinam seu valor poético.
Palavras-chave: saudade e cidade
JEQUIÉ
Pacífico Ribeiro
Jequié, terra do sol, formoso ninho,
Que me afagou na infância e mocidade.
Do seu berço ainda sinto todo arminho,
Aquecendo a ternura que me invade.
Desce o Rio de Contas de mansinho.
Beijando a parte morna da cidade.
Revejo a igreja, a ponte, o Jequiezinho,
E colho em cada rua uma saudade.
Minha terra cresceu, bela e virente,
Surgiram novas ruas, nova gente,
Velhos amigos já não vejo mais!
A bruma do passado me entristece,
Envolvendo minh´alma numa prece,
E cobrindo o jazigo de meus pais.
A cidade e a saudade
Saudade. No dicionário de Houaiss esse termo está definido como “sentimento mais ou menos melancólico de incompletude”. Essa incompletude quase sempre, pode ser aumentada ou diminuída pela memória ou mesmo a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável. Se para um lexicólogo renomado já é difícil definir esse termo, ainda mais difícil ainda é traduzi-lo numa linguagem literária em forma de versos em um soneto. Pacífico Ribeiro poeta que tentou traduzir em imagem poética todo o amor que sentia por sua cidade natal, neste poema intitulado Jequié retoma um tema constante na literatura o saudosismo da terra natal. O poeta inicia o soneto chamando a cidade de formoso ninho, evidenciando o caráter maternal e protetor do local de nascimento.
Jequié, terra do sol, formoso ninho,
Que me afagou na infância e mocidade.
Do seu berço ainda sinto todo arminho,
Aquecendo a ternura que me invade.
Esse primeiro quarteto inteiro é formado por metáforas que chamam a atenção pelo sentido de abrigo e amparo trazidos ao momento presente pela memória do autor: além de ninho, já citado, estão termos como: afagou, berço, arminho, aquecendo e ternura. A palavra ninho nos traz a mente um lugar de proteção e abrigo; o arminho, talvez devido à sua aparência simpática e pelagem valiosa, tem estimulado a imaginação do Homem. No Japão é considerado um símbolo de boa sorte e na Europa medieval e renascentista era visto como símbolo de pureza[1]. A imagem poética lembra um lar acolhedor onde se encontra refúgio e tranqüilidade. A própria sonoridade dos versos 1/3 com rimas pobres: ninho e arminho podem nos remeter aos sufixos formadores de diminutivo na língua portuguesa e que são usados estilisticamente para evidenciar o caráter afetivo imaginado por ele.
Desce o Rio de Contas de mansinho,
Beijando a parte morna da cidade
Revejo a igreja, a ponte, o jequiezinho,
E colho em cada rua uma cidade.
A Jequié cantada nessa segunda estrofe, não existe enquanto espaço construído, e sim, enquanto memória. Esta cidade poderia estar no mesmo rol daquelas descritas por Ítalo Calvino em “As Cidades Invisíveis[2]” (CALVINO, 2003, p.6). Diomira por exemplo era desconhecida por Marco Pólo, mas ao avistar alguns símbolos nela existentes, o viajante veneziano fica com a impressão de já tê-la visto anteriormente; e a razão disso era reconhecer os símbolos desta em outras cidades nas quais havia passado.
Segundo Paulo Sérgio Rounet (ROUNET, 1997, p.65), muitas cidades são originadas diretamente da concepção do mundo dos seus idealizadores.
Minha terra cresceu, bela e virente,
Surgiram novas ruas, nova gente,
Velhos amigos já não vejo mais!
Do mesmo modo que Isidora era a cidade dos sonhos de Marco Pólo, Jequié é a cidade dos sonhos de Ribeiro. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; (...). Os desejos agora são recordações. (Calvino, 2003, p.12). Ao ver sua cidade crescer “bela e virente”, o poeta entende que o progresso da cidade é inevitável e os dois primeiros versos desse terceto possuem verbos no tempo pretérito. Pode se supor que o eu lírico estivesse ausente quando essas mudanças ocorreram. A nova gente que freqüenta essas ruas se contrapõe aos velhos amigos que não mais são vistos, afinal, os últimos, habitavam uma cidade que não mais existe, ou melhor, continua existindo na memória do poeta. É interessante notar a mudança do verbo no último verso do terceto: Vejo, o verbo está no presente, sendo a cidade declamada pelo poeta, um lugar imaginário, os limites do tempo e do espaço tornam-se necessariamente fluidos, presente e passado são retomados num flash tornando-os indistintos entre si, como preconiza Gaspar Simões: “O homem só é alguma coisa quando se imobiliza ou deixa imóvel fora dele o que num instante se foi” (SIMÕES, 1931, p.45-46). È principalmente esse instante que o poeta eterniza em versos.
A bruma do passado me entristece,
Envolvendo minh’alma numa prece
E cobrindo o jazigo de meus pais.
Nesse último terceto o passado comparado metaforicamente como algo misterioso e escuro: bruma. A saudade retoma com força os versos finais revelando todo o esforço do poeta ao reconstruir a cidade imaginaria em sua memória poética. Marco Pólo (CALVINO, p.10) ao relembrar a cidade de Zora, conta que a cidade se torna imagem extraordinária e direta para todo indivíduo que a visita. Em cada ponto do local a memória se torna completa, o acesso a ela é imediato. Desse modo, aquele que a freqüenta apenas uma vez tem em si tudo o que a cidade contém, tornando-a imutável. A cidade tornar-se-ia, então, o lugar ideal da permanência da informação memorial, ressaltada pela presença da palavra jazigo,local propício de lembranças pois lá estão os antepassados do poeta e por extensão dos habitantes de uma cidade. Em Zora apenas se tem a sensação de saber onde tudo está e da certeza da sua imutabilidade. “Zora tem a propriedade de permanecer na memória ponto por ponto(...) O seu segredo é o modo pelo qual o olhar percorre as figuras que se sucedem como uma partitura musical da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma nota.” Nos versos de Pacífico acima, nota-se a fragmentação do curso narrativo cronológico da vida. A imagem real é vista em pedaços que são captados pelos olhos e rapidamente codificados em palavras, formando um todo. Assim, aquela imagem que parecia cortada, se apresenta na íntegra, ainda que disforme.
Ao apresentar os elementos urbanos que constituem a cidade que ama e viveu, o poeta se revela como um homem saudoso e triste. Embora seu olhar fosse um olhar onisciente, que via a cidade com os olhos no passado, sua visão do real o mantinha intimamente conectado à realidade que o rodeava. Dela era ser integrante, alvo de todas as suas ações enquanto cidade. Era um transeunte, um passageiro, ou seja, um cidadão urbano.
REFERÊNCIAS:
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Publifolha, 2003.
HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico houaiss. Disponível na Internet. Httpp:// www.houaiss.uol.com.br . Acessado em 14/07/2008.
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
RIBEIRO, Pacífico. Meu Canto de amor a Jequié. Salvador: Editora Arpoador, 1988.
ROUANET, Sérgio Paulo. A cidade iluminista. In: SCHIAVO, Cléia e ZETTEL, Jaime (org). Memória, cidade e cultura. Rio de Janeiro: IPHAN, 1997.
SIMÕES, João Gaspar. O mistério da poesia. Coimbra: Imprensa da universidade,1931.
* Artigo apresentado à professora Valéria Lessa Mota como avaliação da disciplina Literatura Brasileira V, no II período letivo de 2007 em julho de 2008.
** Aluno do VI semestre do curso de Letras da Uesb, campus de Jequié. E-mail: paulo.cesar1075@hotmail.com Fone: (73) 3526 3296
[1] Alguns exemplos conhecidos de arminhos enquanto símbolos de pureza incluem um quadro de Leonardo da Vinci “moça com arminho” e um retrato de Isabel I, de Inglaterra, onde a rainha-virgem aparece representada com um arminho no colo.
[2] Todas as citações feitas neste artigo são da Edição 2003 da publifolha.

Faz frio na cidade sol. O vento sopra incessante sobre as folhas de um verde vivo no quintal. O vidro da janela reflete a tênue luz do dia que se finda pausadamente. A tristeza que invade o meu peito me oprime. Sei que devo chorar mas não consigo. O tempo passa lentamente. Os últimos pardais apressados se rejubilam entre folhas e formigas no chão. Sinto-me um fracasso! Sinto cansado. Sei lá! Minha vida entrou no turbilhão sem fim. Incendiado por esse sentimento de incapacidade, de impossibilidade de mudança! Se ao menos pudesse antever uma sáida já seria o suficiente para entrar na luta.
Lembro-me das tardes solitárias da infância. Brincava sozinho com meus brinquedos. Minha mãe sempre ocupada nos afazeres diários. Meu velho pai na lida para manter casa e familia. Recordo-me do silêncio em cada canto da casa. Sabia de cor o canto dos passarinho de tanto ouvi-los. O estridente canto da Garrincha. O sussurro macio das Lavandeiras, o repicar contínuo dos onipresentes pardais, o triste canto dos canários.
Sentado em frente a porteira do sítio onde morávamos mirava o horizonte sonhando em como seria morar na cidade. Correr pelas ruas, brincar com outras crianças. Subia o morro com agilidade e destreza. Sabia o nome das plantas e ervas... Eu era feliz e sabia! Só não entendia que o tempo é como um automóvel veloz, sem marcha ré. E por que não dizer... sem freio.
O telefone toca insistente. Para que atender? Nada pode mudar meu estado de espírito hoje. Nenhuma notícia boa. Nenhuma voz amiga. Ah! Quem me dera o tempo da esperança...
Vejo sobre a mesinha de cabeceira um livro que terminei de ler no domingo a noite: Breve romance de um sonho, um bom livro bem escrito, com ótimo enredo.Tudo vai bem na vida do dr. Fridolin e de sua mulher, Albertine. Ambos são jovens, belos, prósperos e têm uma filhinha adorável. Pode-se dizer que, na Viena dos anos 1920, eles formam uma família burguesa exemplar. Até que, numa noite, depois de um baile de máscaras e vários goles de champanhe, Albertine decide confessar ao marido uma antiga fantasia erótica. Perturbado pela história secreta de sua mulher, o dr. Fridolin sai no meio da noite para atender a um paciente em estado grave. A partir desse momento, tudo o que parecia dar sustentação ao mundo das personagens começa a entrar numa espécie de vertigem. Rapidamente o dr. Fridolin se vê enredado numa estranha aventura sexual, em que o desejo e o perigo de morte se auto-alimentam. Ao final da narrativa, o leitor fica com a impressão de que a volta à "realidade de todos os dias" não será mais possível - não para as personagens que a vivenciaram.
Eu também conheço minhas limitações e na luta constante do dia-a-dia quase sempre esqueço daquela recomendação básica de schopenhauer:“Viver e sofrer”.
Mas, apesar de todo seu profundo pessimismo, a filosofia de Schopenhauer aponta algumas vias para a suspensão da dor. Num primeiro momento, o caminho para a supressão da dor encontra-se na contemplação artística. A contemplação desinteressada das idéias seria um ato de intuição artística e permitiria a contemplação da vontade em si mesma, o que, por sua vez, conduziria ao domínio da própria vontade. Na arte, a relação entre a vontade e a representação inverte-se, a inteligência passa a uma posição superior e assiste à história de sua própria vontade; em outros termos, a inteligência deixa de ser atriz para ser espectadora. A atividade artística revelaria as idéias eternas através de diversos graus, passando sucessivamente pela arquitetura, escultura, pintura, poesia lírica, poesia trágica, e, finalmente, pela música. Em Schopenhauer, pela primeira vez na história da filosofia, a música ocupa o primeiro lugar entre todas as artes. Liberta de toda referência específica aos diversos objetos da vontade, a música poderia exprimir a Vontade em sua essência geral e indiferenciada, constituindo um meio capaz de propor a libertação do homem, em face dos diferentes aspectos assumidos pela Vontade.
Chega de filosofia, vou tomar minha dose noturna de caféina enquanto ouço Enya tristemente cansado...



| Você já ouviu falar em pretores? Eles eram juízes que distribuíam a justiça, na Roma antiga. Pois foi um desses magistrados que deu origem a uma palavra de uso muito amplo na língua portuguesa. Esse juiz, Lucius Antonius Rufus Appius, costumava vender, a quem pagasse mais, as sentenças que expedia. Como ele assinava L. A. R. Appius, logo a forma larapius passou a designar pessoas que agissem de modo desonesto, ladrões e gatunos. O vocábulo já entrou no português com esse sentido. A procedência desse termo é controvertida, por não haver no idioma outros vestígios dele. Mas, se a versão é mais atraente que o fato, fique-se com ela. Outra palavra cuja proveniência oscila entre a fantasia e a realidade é cesariana. Como Júlio César teria nascido de uma operação desse tipo, difundiu-se a idéia de que a denominação decorreu desse fato. Ocorre, porém, que, entre os romanos, só se praticava parto cesariano após a morte da gestante. E a mãe de César viveu muitos anos após o nascimento do filho ilustre. |
Contos diversos
Quando o inverno chegou já estava prostrada na cama. As dores do reumatismo aumentavam cada vez mais à medida que o frio se intensificava. Linda, deslumbrante e maravilhosa havia sido em sua juventude. Agora era nada mais que um monte de ossos unidos por uma tênue camada de pele e tendões que doíam a cada instante. Sentia a morte se aproximar como uma nuvem escura que sem nenhum impedimento torna o azul do céu em cinza e chumbo turvando o horizonte.
Sabia que daquele quarto escuro, mórbido e frio jamais sairia. Nos poucos momentos de sobriedade lembrava-se com ternura de sua neta, Helena, tão distante mas sempre tão solícita, tão pronta a ajudá-la em qualquer momento. Ligava todos os dias para ela e ás vezes só de ouvir a voz de Helena suas dores diminuíam. Contudo agora, mesmo que quisesse não conseguiria falar com sua neta, pois a voz já não saía, o máximo que podia era emitir alguns sons guturais quase sempre ignorados por sua filha.
Ouviu vozes ao redor. No entanto não distinguia se eram vozes do presente ou apenas ecos de um passado remoto. Vozes imaginárias vindas de um passado distante e glorioso. Época na qual podia abrir as portas da sua casa para receber a nata da sociedade local em festas memoráveis. Tão concorridas eram estas que os convites eram esperados com impaciência pelos membros abastados daquela cidade.
- Maria, Maria! – gritou, porém não sabia se foi ouvida ou não. Tão fraca voz! Rouca, quase um sussurro.
Maria aparece com seu sorriso de eterna juventude, dentes brancos e bem feitos como de uma modelo daqueles comerciais de creme dental. Voz macia e veludosa qual um roupão felpudo que se usa após um banho refrescante.
- Quero água – sussurra, talvez apenas tenha pensado – não sabe se falou mesmo. Já não consegue diferenciar o que é real ou imaginário em sua vida.
Sabe apenas que por mais que tente apanhar alguma coisa, as mãos não se movem. Ouve Maria lhe perguntar alguma coisa. Ela lhe conta sobre a as novidades do São João
Enquanto as palavras cantantes de Maria soavam pelo quarto, seus pensamentos divagavam pelos outrora dourados anos em que sua casa ficava repleta de amigos nas festas juninas. Gente bonita, gente elegante, que vinha de Salvador, Ilhéus e até do Rio de Janeiro como os Góis sempre tão amáveis. Amigos do tempo da faculdade. Amigos que fizera nas lides do Fórum Bertino Passos . Gente que fizera parte de sua vida tão rica e feliz. Alguns já morreram, outros como ela ainda penavam a espera do desenlace final.
Do que se arrependia? Talvez do que não fez ou do que deixou de fazer por medo ou receio de se comprometer. O que faria outra vez se tivesse outra oportunidade? Viajaria mais, amaria mais, talvez fosse mais compreensiva com os outros. Seria menos possessiva em relação aos filhos e também cobraria menos do saudoso marido que se foi tão cedo. Alberto. Sempre tão carinhoso, tão solícito, tão pronto a satisfazer todas as vontades. A perda de um ente tão querido trouxe-lhe sofrimento no início, depois revolta e até que aos poucos no decorrer dos anos, foi se tornando
Não se lembrava dos nomes desses namorados. Será que algum deles a amou de verdade? Ou apenas teria sido um objeto, uma espécie de troféu a ser exibido? Pois sabia que era cobiçada pelos homens da cidade. Alguns da sua idade, outros mais velhos ou ainda alguns jovens impetuosos que pensavam ser possível dominá-la. Se cansava deles facilmente, não iria perder a liberdade e a auto-estima mendigando carinho de ninguém. Nunca prometia fidelidade, também nunca exigia nada. Queria ser livre na sua viuvez, para seguir seu caminho sem impedimento ou compromisso oficial algum pois, conhecia vários exemplos: Amigas que viviam um casamento de mentira. Tendo de dividir os maridos com amantes. Algumas cometendo o disparate de se rebaixar a ponto de ir às vias de fato com mulheres de reputação duvidosa.
Sempre foi determinada e decidida e jamais se permitiria descer tanto. Se mantinha altiva. Sabia o seu lugar. Sabia que era digna de receber amor e ser amada de verdade, tolo do homem que pensasse o contrário.
Percebe que Maria ainda está falando, agora sobre uma certa vizinha ou algo parecido, sempre sorrindo ela descrevia os novos moradores da casa ao lado. Casa que pertencia a Doutor Apolinário e Rute sua esposa, tão tímida, tão recatada. Lembra-se da chegada desse casal à cidade nos idos anos cinqüenta. Juiz de direito que vinha assumir a comarca de Jequié com apenas vinte nove anos, doutor Apolinário foi recebido com festa. Ela mesmo fez um jantar em sua casa para recebê-los. Compareceram como sempre toda a alta sociedade. Jantar promovido por ela era um verdadeiro sarau. Com direito a crônica de Luís Cotrim e poesia de Alberto Grillo, sem contar a voz de Lúcio Meira que em seu violão cantava as mais belas canções de Sílvio Caldas.
Lembra-se dos olhares trocados entre o Doutor Macedo Vieira, médico recém-formado que havia montado um consultório médico, na rua Alves Pereira, de frente à Jequitaia Tecidos e que já possuía uma boa clientela e sua amiga Márcia Caribé. Com cara de conquistador, daquele tipo que aparece em filmes de faroeste, muito afetado e egocêntrico, pensava ser o tal. Mas o flerte durou pouco, afinal Márcia, sempre foi muito discreta em seus relacionamentos e não permitiria que outros percebessem. O jantar seguia tranqüilo. O prefeito, com jeito de coronel, plantador de cacau e proprietário de duas imensas fazendas que ocupavam toda a extensão do distrito de Florestal, contava dos melhoramentos feitos no bairro Joaquim Romão, e da chegada da eletricidade em todos os bairros da cidade, tão logo o governador liberasse a verba para a companhia de eletricidade; o Professor Alberico exortava à mulher do juiz sobre o clima da cidade e dizia que apenas o calor aumentasse ambos poderiam passar algum tempo na fazenda dele onde o clima era mais ameno que na cidade.
Alberto Grillo pede licença para saudar os novos membros da comunidade e discursa sobre a imparcialidade da justiça, sobre a divisão dos poderes e termina convidando todos a um brinde em homenagem ao casal recém-chegado, logo após declama uma de suas novas composições poéticas e num tom ufanista fala do entardecer, dos últimos raios que o sol espraia sobre a cidade de Jequié.
Lúcio Meira tem oportunidade de nos brindar com sua bela voz de barítono e seu violão sempre tão afinado, deixa a todos enlevados de prazer com uma ótima apresentação musical.
Maria leva água a sua boca e interrompe mais uma vez as memórias de Vânia que sorve a água com sofreguidão. Como era mesmo o nome do filho do doutor Apolinário? Álvaro? Talvez Alvino ou Aldair, não se lembra. Sabe que tinha cabelos lisos, bem pretos e que era tímido como a mãe, quase não levantava os olhos e só respondia ao que lhe perguntavam. Vestido numa camisa de viscose muito branca e uma calça de tergal preta, parecia muito pouco à vontade naquela mesa.
O jantar seguia tranqüilo e sereno. Vez por outra um vento frio entrava pelas janelas e balançava as imensas cortinas vermelhas da sala de estar. Vozes se alternavam numa conversa alegre e festiva. Mais uma vez o prefeito Laércio Torres retoma a conversa com voz grave e alta falando da política da região e da disputa eleitoral que se aproxima; para o prefeito, qualquer pessoa que não o elogiasse era oposicionista e dizia claramente não suportar esse tal regime democrático que permitia tanta liberdade de opinião.
- A democracia é a responsável de tanta bagunça no país, vejam só esse presidente Juscelino, quantos comunistas ele emprega no governo, será que ninguém vê isso? – dizia o prefeito.
- O que queres Laércio, que aqui vire uma espécie de grande Paraguai, governado por generais? – rebateu o professor Alberico Nunes, filho e neto de advogados, sempre prezou a liberdade e a democracia.
- Que seja! Venham os militares e coloquem ordem nisso que está aí, por que não?
Alberto interveio na discussão talvez com receio de se tornar a noite num debate político, dizendo que Juscelino não era comunista e que o Brasil tinha uma constituição que por si só impedia qualquer arroubo aventureiro de quem quer que fosse.
- Ademais o povo escolhe sempre homens responsáveis para administrar o país, não há o que temer – concluiu Alberto.
A noite seguia tranqüila. Um vento fresco vindo do sul soprava incessante nesta noite repleta de estrelas no fundo escuro do céu de setembro.
Esther e Alberto! sentiam que aquele amor nunca teria fim. De fato haviam sido feito um para o outro. Não podia conter a admiração que sentia por ele. Sabia que o seu marido era um homem equilibrado e sensato e nunca tivera ciúmes dele. A brisa, as vozes, os acordes do violão davam-lhe uma moleza no corpo, talvez efeito de dois cálices de vinho que tomou durante o jantar. Ah! Como queria que aquela noite não tivesse fim. Como queria voltar ao passado! Alberto tão elegante naquele blazer azul, sorriso lindo, apertando sua mão com carinho como se dissesse você é magnífica por nos brindar com uma noite igual a essa.
O primeiro a ir embora foi o prefeito. Homem da roça, não costumava dormir muito tarde e sempre acordava antes das seis da manhã. Despediu-se de todos com um sólido aperto de mão. Gigante com quase dois metros de altura, era um colosso. Forte. Impávido apesar dos quarenta e cinco anos, realmente de uma robustez admirável. Cotrim também sai logo após dizendo que ao chegar em casa faria uma crônica sobre essa noite e sobre a chegada do novo magistrado na cidade. Despede-se solenemente do Doutor Apolinário e de sua esposa e jovialmente de Esther e Alberto. Sai abraçado com sua esposa em direção ao carro que estacionaram em frente da casa. Alberto Grillo e Lúcio Meira despedem-se também dizendo que por ser a noite uma criança não iriam imediatamente para casa porém...
Não completaram a frase mas pode-se entender muito bem para onde foram. O juiz e sua esposa agradecem a recepção e dizem que vão querer retribuir um jantar em sua casa logo após se instalarem com mais comodidade. Aos poucos a casa vai ficando vazia, um a um vão saindo e por fim na grande sala de jantar ficam apenas a brilhante Esther e seu marido. Ambos satisfeitos. Mais uma vez puderam dar um jantar maravilhoso organizado por ela.
Maria oferece-lhe água e ela sorve o delicioso líquido com prazer. Cansada de ficar deitada pede a Maria que a coloque na cadeira de rodas, faz gestos para explicar o que seus lábios já não conseguem expressar. Maria sem muito esforço consegue acomodá-la na cadeira e abre a janela de onde ela pode ver o movimento das pessoas que passam na rua. O sol fraco de junho meio encoberto pelas nuvens não consegue aquecer o seu corpo envelhecido. Mas a brisa fresca roça-lhe o rosto com ternura, o que para ela é um prazer. Percebe que na casa ao lado seus novos vizinhos estão cortando uma imensa árvore plantada ainda na época do doutor Apolinário, uma amendoeira de quase quatro décadas de existência. Imponente, mas não resiste à força da moderna moto serra, em pouco tempo seus galhos vão ao chão, um a um, até ficar reduzido ao tronco.
Lembra-se perfeitamente que quem plantou a amendoeira foi o pai de Salete, Seu Euclides, farmacêutico, o primeiro morador daquela casa. Salete e ela eram da mesma idade e ambas estudavam no antigo Ginásio do Padre, ali na avenida Rio Branco. Brincavam no amplo quintal das duas casas. No quintal de sua casa tinha uma casa de madeira que seu pai lhe deu de presente e na de Salete, muitas plantas e flores pois, seu Euclides e dona Corina eram apaixonados por plantas e passavam as horas vagas cuidando do jardim.
Tempo! O que é isso? Uma hora era uma menina despreocupada brincando no fundo do quintal em um outro está sentada em uma cadeira recordando-se do passado.
Salete após o término do curso Normal foi para o Rio de Janeiro. Seu Euclides perdeu a farmácia após se endividar com os bancos devido a uma fazenda que comprou financiada pelo Econômico e não conseguiu pagar. Dona Corina havia morrido dois anos antes de um fulminante ataque cardíaco quando vinha da feira num dia quente de janeiro.
Viria ainda a se corresponder com Salete durante vários anos. Mas aos poucos as cartas foram rareando até cessarem de todo. Um dos filhos de Salete foi até nomeado delegado de Jequié na década de oitenta. Ficou pouco tempo, apenas dois anos, sendo transferido posteriormente para a capital.
Os homens que cortam os galhos da amendoeira não sabem quem foi Euclides, muito menos Salete e não se recordam do doutor Apolinário. São jovens o suficiente para só olharem para frente. Não perdem tempo com recordações. Fazem a vida acontecer. Nenhum deles estão preocupados com a iminência da morte. Com certeza querem celebrar o momento como todos os jovens fazem.
Finalmente o grosso tronco é derrubado. E ela não pode deixar de comparar aquela queda com a sua própria vida. Tanta vaidade. Tanto luxo. Para que? Para terminar os dias em cima de uma cadeira de rodas? Nunca foi religiosa e isso sempre causava-lhe ás vezes, uma certa angústia. Uma amiga muito religiosa, Luzia, sempre que conversavam falava-lhe de uma nova vida, coisas desse tipo. Mas ouvia apenas por educação. Sua posição social, suas amizades não eram condizentes com religiosidade, apesar de ir a missa de vez em quando ou ir a casamentos e batizados quando convidada.
Luzia. Justamente por causa desse mulher tão rigidamente puritana, que ela teve o privilégio de viver uma dos capítulos mais fascinantes de sua vida.
CAPÍTULO II
Maio de 1956. O vento ainda morno soprava sobre os cabelos de Esther na descida da rua da Itália próximo ao prédio dos correios. O céu parcialmente coberto de nuvens e um verão que teimava em não terminar. O mormaço poderia ser sinal de chuva. Ou não. O clima em Jequié era realmente uma incógnita. Alguns poucos estudantes vindos da Escola Castro Alves passam fazendo algazarra, entre sorrisos e gritos, esses barulhentos e irrequietos meninos vão curtindo a beleza da adolescência. Esther sente saudades. Saudades do filho que ainda não teve. No início do casamento sentia-se pressionada pelos parentes e amigos a ter um filho. Todos lhe perguntavam quando afinal viria o primeiro filho, mas o tempo foi passando e aos poucos todos foram se acostumando com a situação e Alberto nunca mesmo falou no assunto. Quando alguém questionava ele dizia que viria quando Deus quisesse.
Entra na avenida Rio Branco e se dirige a sua casa ali na rua Trecchina, o relógio da matriz anuncia que são cinco horas. Ao passar pelo portão sente o cheiro de sopa que Graça deve estar fazendo. Magnífica cozinheira. Tem o verdadeiro talento para as artes culinárias. Alberto dentre em pouco já estaria chegando da fazenda. Ele mal teria tempo para jantar e sairiam para uma sessão solene na câmara de vereadores. O membros desta casa resolveram de bom grato dar o título de cidadão jequieense ao velho farmacêutico Celli de Freitas e eles não iriam perder essa homenagem.
Alberto chega em casa às seis em ponto e mal dar tempo de jantarem, pois a sessão está marcada para ás dezenove e trinta. Partem sem muita demora: ele com um terno escuro e cabelo bem escovado, parecia um advogado e ela num vestido azul claro com um decote frontal que mandara fazer especialmente para aquela ocasião. Sentia-se feliz ao descer a rua ao lado do marido. Preferiram deixar o carro em casa.
Todos os amigos e conhecidos lá estavam. Sentam-se perto do professor Alberico que hoje está excepcionalmente elegante com um blazer azul marinho e uma camisa branca. Logo a frente deles estão o Lúcio Meira e o Alberto Grillo que os cumprimenta sorridente como sempre. Vozes abafadas, quase sussurradas ecoam aqui e ali, num burburinho inquietante da espera do início da cerimônia. Esther vê em uma das primeiras cadeiras o seu ex-colega de faculdade, Danilo, sobrinho do homenageado. Sente saudades do tempo em que ambos ainda estudantes de Direito, moravam em Salvador, quase vizinhos de República. Ele, na rua Chile, num apartamento com outros três colegas, e ela na Carlos Gomes dividia o apartamento com outras quatro. Nesta época, Alberto morava
A sessão solene começa e o presidente convida o homenageado a tomar assento na mesa. O secretário da casa ler os motivos que culminaram na outorga do título de cidadão jequieense ao doutor Celli, e após a leitura da ata da sessão recebe uma medalha, sob os aplausos da platéia. Nota-se claramente a ausência do prefeito, que naturalmente não gostava destes atos democráticos, e muito menos desta independência que os vereadores estavam demonstrando indicando alguém contra vontade dele para receber essa que era a maior honraria da cidade sol. Todos sabiam da antipatia que ele sentia pelo doutor, desde que este vendera um enorme terreno no bairro jequiezinho para um missionário protestante. O prefeito esperneou, berrou, mas o inflexível médico fez ouvidos moucos e não só vendeu como também passou a freqüentar os cultos que esse pastor e a esposa ministravam na casa que ele tinham lá na rua do oriente.
Ao voltar para casa Esther sente-se mal e quase desmaia no colo do marido. Sente vertigens pela segunda vez na mesma semana, e começa a desconfiar que pode estar grávida. Não pode dizer como na segunda-feira que foi apenas um desfalecimento por causa do calor pois, nesta noite estava ventando muito bem e o ar estava quase frio. No outro dia certamente iria marcar uma consulta com o doutor Sebastião Azevedo para ter certeza ou não da gravidez. Alberto já começa a sonhar com um menino correndo pela casa e, ela pensa nas noites mal dormidas que viriam quando o possível bebê viesse. Dorme sonhando com as transformações que viriam acontecer em sua vida.